Do piano aos palcos internacionais, o maestro João Carlos Martins revisita sua trajetória em entrevista a Johann Peer e fala sobre acesso à música clássica, educação musical, cultura pública, independência artística e os novos caminhos da música brasileira.
JOÃO CARLOS MARTINS: O SONHO QUE CONTINUA A CORRER ATRÁS DA MÚSICA
Da consagração internacional aos desafios impostos pela saúde, maestro brasileiro fala sobre arte, educação, cultura e os caminhos da música no século XXI
Por Johann Peer — São Paulo
Há trajetórias artísticas que podem ser compreendidas por meio de datas, concertos e grandes acontecimentos. Outras exigem uma palavra diferente: persistência.
A história do Maestro João Carlos Martins pertence a essa segunda categoria.
Reconhecido internacionalmente por sua atuação como pianista e maestro, Martins construiu uma carreira que atravessou palcos, orquestras e diferentes momentos da música brasileira e internacional. Mas sua trajetória também foi marcada por dificuldades que alteraram profundamente sua relação com o piano.
Problemas que afetaram os movimentos de suas mãos levaram médicos a recomendar que deixasse de tocar. O pianista, porém, encontrou maneiras de permanecer ligado ao instrumento e, posteriormente, ampliou sua atuação como maestro e articulador de projetos dedicados à música e à educação cultural.
Essa capacidade de transformar circunstâncias em novos caminhos aparece também em sua maneira de falar sobre a vida.
“A gente corre, corre atrás de um sonho e, quando a gente percebe, o sonho está correndo atrás da gente!”
A frase tornou-se uma espécie de síntese de sua visão sobre a existência artística: o sonho como algo que se constrói com trabalho, persistência e disposição para continuar.
Em entrevista a Johann Peer, o maestro revisitou momentos de sua formação e refletiu sobre questões que continuam presentes no cotidiano da cultura brasileira: o acesso à música clássica, a educação musical, a situação dos profissionais da área, a transformação do mercado fonográfico e o espaço conquistado pelo artista independente.
UMA VIDA ENTRE O PIANO E A ORQUESTRA
A música entrou cedo na vida de João Carlos Martins.
O primeiro contato ocorreu dentro da própria família, por influência de seu pai, que tinha o desejo de ser pianista, mas não conseguiu realizar esse projeto pessoal.
“Foi através de meu pai, que tinha o sonho de ser pianista, mas não pôde realizá-lo. Desde cedo eu e meus irmãos tivemos contato com a arte em geral.”
Os estudos de piano começaram quando ainda era criança.
“Comecei meus estudos de piano aos 8 anos e 6 meses, depois já estava ganhando um concurso.”
A dimensão que o piano ocupava dentro da família pode ser percebida em uma lembrança curiosa do maestro:
“Lembro-me de que houve uma época em que tivemos sete pianos em casa, sendo três de cauda!”
A formação precoce abriu caminho para uma carreira que posteriormente levaria Martins a importantes palcos brasileiros e internacionais.
O ACESSO À MÚSICA CLÁSSICA
Existe uma percepção recorrente de que a música clássica estaria distante de parcelas significativas da população brasileira. Para João Carlos Martins, entretanto, a questão deve ser observada por outro ângulo.
Ao ser perguntado sobre o que seria necessário para ampliar o interesse pela música de qualidade no país, sua resposta foi direta:
“O nosso povo tem ótimo gosto musical; o que falta é acesso à música de qualidade.”
O maestro baseia sua percepção na experiência acumulada em apresentações realizadas em diferentes ambientes e regiões.
“Em todas as apresentações que fiz, desde teatros até periferias e pequenas cidades do interior do Brasil, a receptividade do público com a música clássica foi espetacular.”
Para Martins, a experiência demonstra que a aproximação entre público e música de concerto pode ocorrer quando existem oportunidades concretas de contato.
“Isto me leva a crer que não se trata de mau gosto, mas sim de falta de oportunidade.”
A declaração coloca em primeiro plano uma questão importante para o debate cultural: democratizar o acesso às manifestações artísticas significa também criar condições para que diferentes públicos possam conhecê-las.
QUANDO O PALCO SE TORNA O MOMENTO MAIS IMPORTANTE
Qual foi o momento mais importante de sua carreira?
A pergunta poderia provocar uma longa lista de concertos, cidades ou apresentações memoráveis.
A resposta de João Carlos Martins, entretanto, desloca a atenção para o presente de cada apresentação.
“Até hoje o momento mais importante da minha carreira é aquele que entro no palco, não importa onde.”
O palco, portanto, não aparece apenas como o lugar da consagração. Ele representa o próprio acontecimento musical.
Quando Johann Peer perguntou qual havia sido o momento mais difícil de sua trajetória, Martins lembrou a recomendação médica para que abandonasse o piano.
“O mais difícil foi quando os médicos me disseram que eu não poderia mais tocar piano.”
A resposta seguinte é igualmente significativa:
“Ainda bem que não acreditei e continuo tentando.”
“O MILAGRE DAS MÃOS”
A relação entre o maestro, o piano e os desafios enfrentados ao longo da vida também foi registrada em livro.
Questionado sobre a possibilidade de transformar sua experiência em uma obra que pudesse alcançar pessoas que enfrentam dificuldades, Martins revelou que essa história já havia sido publicada.
“Na verdade este livro já foi escrito há alguns anos. Chama-se ‘O Milagre das Mãos’, que infelizmente está esgotado.”
O livro integra a memória de uma trajetória na qual a música permaneceu presente mesmo quando o piano deixou de ser executado da maneira convencional.
CULTURA PÚBLICA: UM CAMPO EM TRANSFORMAÇÃO
A entrevista também abordou a gestão pública da cultura no Brasil.
Ao comentar o trabalho desenvolvido por órgãos culturais em diferentes níveis de governo, Martins reconheceu mudanças no acesso às artes, mas ressaltou que o processo ainda apresenta desafios.
“Acho que sob muitos aspectos a gestão pública cultural tem melhorado, pois o acesso às artes em geral e à música em particular tem aumentado, mas ainda há muito o que ser feito.”
A observação estabelece uma perspectiva de continuidade: avanços podem coexistir com demandas ainda não atendidas.
EDUCAÇÃO MUSICAL E FORMAÇÃO DE NOVOS PROFISSIONAIS
A educação aparece como outro ponto central da conversa.
Martins destacou a importância do ensino musical e chamou atenção para a necessidade de ampliar a quantidade de profissionais capacitados para atuar na formação de novos estudantes.
“Estamos num período em que acredito que muita coisa vai mudar, já que agora é obrigatório o ensino da música nas escolas.”
Na avaliação apresentada pelo maestro, o Brasil possui profissionais qualificados, mas enfrenta desafios para atender à demanda educacional.
“Temos excelentes profissionais, mas ainda são poucos os educadores para suprir a demanda em virtude desta nova legislação.”
A discussão não se limita à sala de aula. Martins também destaca a dimensão profissional da atividade musical:
“Sob o aspecto profissional precisamos fortalecer a categoria e entidades representativas para maior defesa dos direitos dos músicos profissionais.”
O NOVO MAPA DA MÚSICA INDEPENDENTE
A transformação tecnológica modificou profundamente a relação entre artista, indústria e público.
Quando questionado sobre a situação do músico independente brasileiro, Martins observou que o setor passa por uma fase de transição.
“Também estes setores estão em transição desde o advento da internet e das formas de divulgação da música em geral.”
Uma das mudanças mais significativas está na possibilidade de o próprio artista encontrar caminhos de divulgação sem depender exclusivamente das grandes gravadoras.
“Hoje não é só através das grandes gravadoras que é possível divulgar o trabalho musical.”
Mas o processo ainda está em construção:
“Acho que nem mesmo estas grandes companhias descobriram ainda como será daqui para frente.”
A observação permanece especialmente atual diante da multiplicação de plataformas digitais, redes sociais e novas formas de distribuição musical.
É POSSÍVEL VIVER DE MÚSICA?
A possibilidade de viver exclusivamente da própria produção artística continua sendo uma das questões centrais para músicos e compositores.
Sobre a possibilidade de o artista brasileiro construir uma carreira sem depender necessariamente da indústria fonográfica ou da grande mídia, Martins destacou a velocidade das transformações.
“Acho que o quadro está mudando muito e rapidamente, e fica muito difícil fazer alguma previsão.”
Sua resposta, entretanto, termina com a característica que atravessa sua trajetória:
> **“Como sou um otimista incorrigível, acho que a tendência é melhorar.”**
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A ARTE COMO ESPELHO DE UMA SOCIEDADE
Ao abordar o papel da música e das artes na formação individual, educacional, cultural e social, João Carlos Martins recorreu a uma frase atribuída ao compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos:
“Não é um povo inculto que vai julgar as artes, mas sim as artes é que mostram a cultura de um povo.”
A afirmação sintetiza uma visão segundo a qual a arte não ocupa apenas uma função de entretenimento. Ela também pode contribuir para processos de formação, memória e construção cultural.
É nesse território que se inserem projetos de educação e democratização musical desenvolvidos ao longo da trajetória de Martins.
NÃO DESISTIR
No encerramento da entrevista, Johann Peer perguntou ao maestro qual conselho ofereceria às pessoas que pretendem ingressar no universo musical e artístico.
A resposta veio em duas palavras:
“Não desistir.”
Em seguida, Martins retomou a frase que atravessa sua visão sobre sonhos e trajetória:
“A gente corre, corre atrás de um sonho e, quando a gente percebe, o sonho está correndo atrás da gente!”
Talvez esteja justamente aí a síntese mais precisa de uma carreira construída entre grandes palcos, mudanças inesperadas e a permanente procura por novas possibilidades.
João Carlos Martins não fala apenas sobre música. Sua trajetória tornou-se também uma reflexão sobre permanência: aquilo que muda, aquilo que permanece e aquilo que pode ser reinventado quando o caminho originalmente imaginado deixa de existir.
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UMA TRAJETÓRIA QUE CONTINUA
A história de João Carlos Martins reúne o pianista, o maestro, o educador e o articulador cultural.
Sua experiência atravessa gerações e diferentes espaços da música brasileira, mantendo como eixo a relação entre arte, formação e público.
Ao revisitar essa trajetória, a entrevista concedida a Johann Peer revela uma concepção de carreira na qual o reconhecimento não representa um ponto final. Cada palco pode ser novamente o primeiro; cada dificuldade pode exigir uma nova maneira de continuar; e cada sonho pode adquirir um percurso diferente daquele inicialmente imaginado.
No universo de João Carlos Martins, a música permanece em movimento.
E, enquanto houver música, o sonho continua correndo.
JOHANN PEER é jornalista responsável pelo MTB/SP nº 65.158, vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.
PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER — jornalismo cultural, música, arte, memória e produção independente.

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