Da Zona Norte de São Paulo aos palcos da cena independente, banda transforma experiências pessoais, crítica social e paixão pelo punk rock em uma trajetória marcada por reencontros, autoralidade e renovação sonora
PANORAMA CULTURAL | POR JOHANN PEER
Fotografia por MAZZEY
O rock independente brasileiro é formado por inúmeras histórias de bandas que constroem sua trajetória longe dos grandes circuitos da indústria fonográfica, sustentadas principalmente pela paixão pela música, pelo trabalho coletivo e pela relação direta com o público.
É nesse universo que se insere o Kalango HC, grupo surgido em 2001, na Zona Norte de São Paulo, que atravessou diferentes momentos, passou por um período de pausa e retomou suas atividades em 2017. Ao longo dessa trajetória, a banda manteve suas raízes no punk rock e no hardcore, ao mesmo tempo em que incorporou elementos de sonoridades mais pesadas.
Em entrevista ao PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER, o baixista Fernando Sinfras revisita a história do grupo, fala sobre as influências que marcaram sua formação, o processo de composição, a gravação de “Pedras e Flores”, a atual formação, os encontros com nomes da cena brasileira e os próximos passos do Kalango HC.
QUEM É O KALANGO HC
Fotografia:Acervo da banda
O Kalango HC nasceu em 2001, na Zona Norte de São Paulo, a partir da afinidade musical entre seus integrantes e da vontade de construir uma banda inspirada pelo hardcore melódico e pelo rock brasileiro que ganhava espaço naquele período.
Segundo Fernando Sinfras, o grupo pertence à chamada “geração MTV”, período em que videoclipes e programas musicais exerciam forte influência sobre jovens músicos.
Entre as referências que faziam parte do repertório dos integrantes estavam CPM 22, Garage Fuzz, Dead Fish, Raimundos e Charlie Brown Jr.
“Nós queríamos ser uma banda como essas que admiramos. No início tocávamos cover para divertir e, nesta época, começamos a compor algumas músicas que estão em nosso set até hoje”, recorda Fernando.
O músico também lembra, com bom humor, a visão que a banda tinha sobre o mercado musical naquele início:
“Não entendiamos nada do mercado musical. Achávamos que era só gravar um clipe na filmadora caseira e mandar para a MTV.”
Mais de duas décadas depois, a relação com aquelas referências permanece, mas a percepção sobre o funcionamento da cena musical mudou.
“Hoje ainda admiramos todas nossas referências e outras novas também. Hoje, mais maduros, sabendo o lugar que o Kalango ocupa, fazemos parte da cena independente.”
UMA HISTÓRIA MARCADA POR PAUSA, REENCONTRO E MATURIDADE
A trajetória do Kalango HC também foi marcada por uma interrupção entre 2005 e 2017.
Segundo Fernando, aquele período representou uma fase de transformação pessoal para os integrantes, que passaram a dedicar atenção a família, trabalho e outros projetos.
“Neste hiato, a banda ficou mais madura. Em 2005, todos da banda estavam procurando seu próprio rumo, família, emprego e direção.”
A retomada aconteceu inicialmente como um reencontro entre antigos companheiros.
Aos poucos, os ensaios voltaram a fazer parte da rotina e a vontade de tocar novamente ganhou força.
“A volta do Kalango em 2017 foi motivada pela paixão ao punk rock e hardcore e a vontade de viver a cena independente.”
A característica independente também está relacionada ao fato de os integrantes manterem suas profissões e não dependerem exclusivamente da música para sua subsistência.
DA EXPERIÊNCIA PESSOAL À COMPOSIÇÃO
Para o Kalango HC, a composição nasce principalmente da observação da realidade e das experiências vividas pelos próprios integrantes.
Fernando explica que as letras abordam temas presentes no cotidiano e questões que fazem parte dos debates da sociedade contemporânea.
Entre os assuntos citados pelo músico estão racismo, intolerância religiosa, saúde mental, conflitos sociais, guerras, autoestima e diferentes contradições da vida contemporânea.
“As composições do Kalango são experiências vividas pelos seus integrantes que foram transformadas em músicas.”
Na visão do baixista, tratar desses assuntos por meio da música também contribui para estimular reflexão.
“Temas que não podem ser um tabu. Quanto mais o assunto estiver em relevância, mais a sociedade se informa e toma seu posicionamento.”
A proposta encontra no hardcore uma linguagem musical direta, marcada por velocidade, peso e intensidade.
“Em nossas composições, procuramos trazer temas relevantes a serem discutidos pela sociedade, com acordes rápidos e pesados.”
UMA SONORIDADE EM TRANSFORMAÇÃO
Entre 2022 e 2025, o Kalango HC ampliou seu repertório autoral com trabalhos como “Espelho”, “Pela Paz!” e “Toyota Song’s”.
Nesse processo, a chegada do baterista Fábio Lopes, em 2023, teve papel importante na transformação dos arranjos.
Segundo Fernando, a nova formação passou a incorporar recursos característicos de vertentes mais pesadas da música.
“O Fábio é um baterista muito talentoso. Com sua entrada na banda, todas as músicas foram repaginadas, com elementos do metal, quebras de tempo, breakdown e frases pesadíssimas.”
O resultado é uma sonoridade que continua dialogando com o hardcore, mas apresenta aproximações com o metalcore.
Entre as referências contemporâneas mencionadas pelo baixista estão Black Pantera, Eskröta, Sujera e Bayside Kings.
Essa combinação entre referências antigas e novas experiências representa uma das características da atual fase do grupo.
“PEDRAS E FLORES”: UMA COMPOSIÇÃO DE 2001 QUE GANHOU NOVA VIDA
Um dos momentos importantes dessa trajetória foi o lançamento de “Pedras e Flores”, primeiro single oficial do Kalango HC.
Embora tenha sido gravada e lançada oficialmente apenas em 2023, a composição remonta aos primeiros anos da banda.
A música foi registrada no Conspiração Records, em Osasco.
Informações publicadas na época do lançamento registram que a produção contou com participação da própria banda, com assistência de Lau Andrade e Gil Freitas (Sub-Rock), enquanto a captação, mixagem e masterização ficaram associadas ao trabalho realizado no estúdio.
Fernando destaca a importância daquele registro:
“A música ‘Pedras e Flores’ foi a nossa primeira música autoral, composta em 2001. Após o retorno da banda, uma das metas era registrar essas músicas nas plataformas digitais de música.”
A faixa representa, portanto, uma ligação direta entre o Kalango HC de sua primeira fase e a banda que retornou aos palcos anos depois.
A divulgação do lançamento também registrou que a música transmite uma mensagem relacionada à superação das dificuldades da vida.
COMO “PEDRAS E FLORES” FOI CONSTRUÍDA
O processo criativo da faixa envolveu a contribuição de diferentes integrantes.
De acordo com informações divulgadas sobre o lançamento, o riff principal foi apresentado pelo guitarrista Leandro Chocho, enquanto a letra foi escrita pelo vocalista André Biello. A composição instrumental contou ainda com contribuições de César, Leandro Chocho, Anderson Toyota e Fernando Sinfrônio.
A música nasceu, portanto, de um processo coletivo, característica bastante presente na criação de bandas de rock.
Para o Kalango HC, registrar uma composição antiga representou também uma forma de preservar parte da própria história.
O PALCO COMO ESPAÇO DE EXPERIÊNCIA E APRENDIZADO
A trajetória do Kalango HC passou também pela oportunidade de dividir palcos com nomes conhecidos da cena punk, hardcore e rock independente.
Em 2024, a banda teve a oportunidade de abrir apresentações e compartilhar espaços com grupos como Garotos Podres e Garage Fuzz.
Para Fernando, essas experiências representam mais do que simplesmente tocar antes de bandas admiradas.
“É uma realização dividir palco com bandas consagradas da cena, ver os bastidores, conviver com as bandas, conhecer e conversar nos camarins e entender a produção do show deles.”
Segundo o músico, esse contato contribui para o amadurecimento profissional do grupo.
“Está fazendo o Kalango amadurecer e ficar cada vez mais profissional.”
ROCK EM DIFERENTES ESPAÇOS
Fotografia por MAZZEI
O Kalango HC também já levou seu repertório para ambientes diferentes das tradicionais casas de shows da cena underground.
A banda relata apresentações em um colégio estadual, no Senai de Osasco e no Largo do Paissandu, em São Paulo.
Para Fernando, ocupar esses espaços amplia o contato entre a música e públicos diversos.
“É sempre importante levar o som do Kalango a lugares alternativos. Sempre haverá pessoas que aprovaram e reprovam nosso som.”
Ao recordar uma apresentação no Largo do Paissandu, o baixista destaca especialmente o contato com pessoas que normalmente não frequentam os circuitos tradicionais da música pesada.
Segundo seu relato, a apresentação acabou gerando aproximação espontânea entre a banda e pessoas que estavam no local.
“Eles queriam conversar e nos abraçar. Percebemos como eles são invisíveis. Muitos só querem se sentir parte de algo, uma conversa, um abraço.”
O episódio, na visão do músico, reforçou para a banda o potencial da música como espaço de encontro e convivência.
A IMPORTÂNCIA DA CENA INDEPENDENTE
Ao falar sobre a circulação do rock autoral, Fernando destaca a atuação de produtores culturais, rádios, podcasts, espaços independentes e veículos especializados.
Para ele, esses agentes ajudam artistas a encontrar público e construir trajetórias.
O baixista também menciona iniciativas e profissionais que, segundo seu relato, contribuíram para a movimentação da cena independente em Osasco e na Grande São Paulo.
Entre eles está Lau Andrade, associado pelo músico a atividades de shows, podcasts e gravações, além da Associação Consciência Cultural e eventos como SP Rock Nation e Festival Consciência Cultural.
Fernando defende que diferentes manifestações musicais tenham espaço em políticas culturais e eventos públicos.
KALANGO HC E BLACK PANTERA: UM ENCONTRO ENTRE GERAÇÕES
Em 2026, o Kalango HC dividiu palco com o Black Pantera, experiência que Fernando descreve como especialmente significativa.
O baixista conta que já acompanhava o grupo havia alguns anos e que a aproximação com a banda tornou o encontro ainda mais especial.
Segundo Fernando, o contato começou antes da apresentação e evoluiu para uma relação de proximidade dentro da cena.
Quando surgiu o convite para o Kalango HC participar de um evento em Americana, o grupo inicialmente não sabia quem seria a atração principal.
A confirmação de que o headliner seria o Black Pantera aumentou a expectativa.
“Ficamos muito empolgados com a notícia de estar no line-up do Black Pantera.”
O músico relata que as bandas passaram boa parte do dia juntas durante o evento, incluindo momentos de convivência fora do palco.
Para Fernando, a experiência trouxe inspiração principalmente pela trajetória construída pelo Black Pantera.
“Conviver com bandas grandes faz o Kalango realizado e com mais gana ainda.”
E acrescenta:
“Quando voltamos com a banda em 2017, nosso objetivo era viver a cena.”
ENCONTROS ENTRE DIFERENTES GERAÇÕES DO ROCK
Outro momento aguardado pelo Kalango HC envolve a possibilidade de dividir espaço com Dead Fish e Skamoondongos.
Para Fernando, encontros entre grupos de diferentes gerações podem contribuir para a circulação de novos trabalhos e para a aproximação entre públicos.
“Esses festivais com grandes bandas, com abertura das bandas novas, são importantes para engajamento.”
O músico também observa que apresentações ao lado de artistas conhecidos podem ampliar a exposição digital dos grupos independentes, especialmente nas redes sociais.
Ao mesmo tempo, destaca o interesse em apresentar as músicas do Kalango HC para públicos que já possuem afinidade com o hardcore brasileiro.
NOVAS MÚSICAS E PRIMEIRO ÁLBUM FÍSICO
O próximo capítulo do Kalango HC envolve a criação de novas músicas e a expansão do trabalho autoral.
Segundo Fernando, a banda está compondo material que deverá ser registrado e disponibilizado nas plataformas digitais.
Entre os temas das novas composições estão situações relacionadas ao cotidiano do trabalhador e uma música dedicada à mãe do vocalista André Biello.
A banda também planeja um passo importante para 2027: o lançamento de seu primeiro material físico.
“Em 2027 vamos lançar um álbum físico, CD, com um encarte com muitas fotos e letras de músicas.”
O projeto representa uma retomada de um formato tradicional da cultura fonográfica e pode funcionar também como registro documental da trajetória do grupo.
25 ANOS DE HISTÓRIA E NOVOS OBJETIVOS
Depois de aproximadamente 25 anos desde sua formação, o Kalango HC continua mirando novos palcos.
Entre os objetivos estão apresentações em diferentes cidades do estado de São Paulo e possíveis shows em Belo Horizonte, Curitiba e Rio de Janeiro.
A banda também considera a possibilidade de realizar uma turnê pelo interior paulista e, futuramente, ampliar sua circulação para outros estados.
Para os músicos, a independência está associada não apenas à liberdade artística, mas também à necessidade de organização.
Fernando deixa um conselho para quem pretende começar uma banda:
“Você que quer formar uma banda, estude muito seu instrumento, seja persistente e pense na sua banda como uma empresa. Invista em marca e merchandising.”
O DEBATE SOBRE O FOMENTO AO ROCK EM SÃO PAULO
A discussão sobre políticas públicas para o rock também aparece na entrevista.
O tema ganhou espaço na agenda cultural paulistana com o PL 622/2025, projeto que propõe instituir o Programa Municipal de Fomento ao Rock e suas Vertentes.
Segundo os registros oficiais da Câmara Municipal de São Paulo, a proposta foi aprovada em primeira discussão em novembro de 2025 e em segunda discussão em 27 de maio de 2026. Posteriormente, recebeu veto total do Executivo municipal.
Em 26 de agosto de 2026, uma audiência pública da Câmara debateu os impactos culturais, econômicos e sociais da proposta. A Prefeitura justificou o veto, entre outros pontos, argumentando que já existem instrumentos municipais de fomento que contemplam projetos musicais e que o texto criaria obrigações orçamentárias.
No momento desta publicação, o veto continua fazendo parte da tramitação legislativa registrada pela Câmara Municipal.
Questionado sobre o tema, Fernando defende maior presença do rock nas políticas culturais:
“Temos que cobrar da Secretaria de Cultura de São Paulo os investimentos e eventos para que o rock esteja em todas as camadas da sociedade.”
A declaração é apresentada como posicionamento do entrevistado, dentro do debate público sobre políticas culturais.
A MENSAGEM DO KALANGO HC PARA O PÚBLICO
Ao final da conversa com o PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER, Fernando deixa uma mensagem direcionada aos fãs e às pessoas que acompanham a música independente.
“Ajudem as bandas independentes, frequentando os shows, seguindo as bandas nas redes sociais e comprando merchandising das bandas.”
O músico também destaca o papel de jornalistas, repórteres, produtores e veículos especializados na divulgação da cena.
“Sigam os perfis de repórteres que fazem, divulgam e fomentam o rock.”
E completa:
“Sigam e leiam o blog PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER.”
KALANGO HC: UMA HISTÓRIA QUE CONTINUA SENDO ESCRITA
A trajetória do Kalango HC mostra como uma banda pode atravessar diferentes fases da vida sem abandonar sua relação com a música.
Do início marcado pela influência da geração MTV à retomada em 2017, passando pelo lançamento de “Pedras e Flores”, pela renovação sonora proporcionada pela chegada de Fábio Lopes e pelos encontros com diferentes nomes da cena pesada brasileira, o grupo construiu uma identidade baseada na combinação entre memória, experiência e renovação.
Mais do que preservar uma sonoridade, o Kalango HC procura transformar suas vivências em música.
E, ao olhar para 2027, a banda prepara novas composições, registros digitais e seu primeiro álbum físico.
A história iniciada na Zona Norte de São Paulo em 2001, portanto, segue em movimento — agora com novos palcos, novas músicas e a mesma disposição de permanecer conectada à cena independente.
ENTREVISTA | FERNANDO SINFRAS | KALANGO HC
Fernando Sinfras
Função: baixista do Kalango HC
Banda: Kalango HC
Origem: Zona Norte de São Paulo
Formação: 2001
Retorno às atividades: 2017
Gêneros: hardcore, punk rock e vertentes da música pesada
Single de destaque:“Pedras e Flores”
Estúdio: Conspiração Records, Osasco
Novos projetos: singles, conteúdos audiovisuais e álbum físico previsto para 2027
A formação divulgada no lançamento de “Pedras e Flores” apresenta Fábio Lopes (bateria), César (guitarra), Fernando Sinfrônio/Sinfras (baixo) e André Biello (vocais).
Fotografia:Acervo da bandaINFORMAÇÕES OFICIAIS E PLATAFORMAS
Os canais de contato e redes sociais divulgados para o Kalango HC incluem:
Links redes e mídias sociais Kalango HC:
Instagram:
https://www.instagram.com/banda_kalango_hc
@banda_Kalango_hc
YouTube:
https://youtube.com/@kalangohc-bs2lf?si=u0DL_933CjdACKjf
Facebook:
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“Pedras e Flores”, de Kalango HC, também está disponível em serviços de streaming; a faixa foi registrada com duração de 2min33s e lançamento em setembro de 2023.
Ouça a faixa: Pedras e Flores – Kalango HC |SPOTIFY:
https://open.spotify.com/track/08DiOXvdVqhvwFuXD17lSW?si=THHAx11TR0KkTp7K8c5plA&utm_source=copy-link
PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER acompanha artistas, bandas, produtores, profissionais da cultura e diferentes manifestações da música independente, buscando registrar trajetórias e ampliar o espaço de divulgação da produção cultural brasileira.
Johann Peer é jornalista (MTB/SP nº 68.158), filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (nº 23.681), jurado da 20ª edição do Concurso Autorais SMPENG 2026, Embaixador do TOUR ROCK BRASIL em Peruíbe-SP através da Comunicadora, Apresentadora e Jornalista Kaká Schwartzmann além de vocalista, compositor, poeta, escritor e ativista cultural da banda PEER & INUMANOS.
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