domingo, 13 de setembro de 2026

Roberta Campos: a música como caminho de identidade, memória e transformação cultural



Da trajetória independente às trilhas de novelas, cantora e compositora mineira fala ao PANORAMA CULTURAL e a REVISTA LUSARTE sobre criação, parcerias, mercado musical, diversidade cultural e o poder da música de tocar vidas

PANORAMA CULTURAL | POR JOHANN PEER

Da infância vivida entre Caetanópolis, Paraopeba e Sete Lagoas, em Minas Gerais, à construção de uma carreira reconhecida nacionalmente, Roberta Campos transformou dificuldades, curiosidade e paixão pela música em uma trajetória marcada pela autoria e pela busca de identidade artística. Em entrevista ao PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER (em parceria com a REVISTA LUSARTE de Portugal), a cantora, compositora e artista revisita momentos decisivos de sua carreira, desde a produção independente do álbum Para Aquelas Perguntas Tortas, lançado em 2008, até a chegada à gravadora Deck, as parcerias com grandes nomes da música brasileira e a presença de suas canções em 21 trilhas de novelas.

Mais do que relembrar conquistas, Roberta Campos apresenta uma visão sobre o papel da música em uma sociedade atravessada por transformações tecnológicas, excesso de informação e mudanças profundas na indústria fonográfica.

A música como descoberta e caminho

Antes dos palcos, dos estúdios e do reconhecimento do público, existia uma menina que encontrou na música uma possibilidade de imaginar outros caminhos.

Roberta conta que veio de uma realidade de poucos recursos e que a música surgiu como uma espécie de força propulsora.

“A música entra na minha vida como um respiro, um incentivo e um sonho que me impulsionou para vida! Para buscar meus objetivos.”

Autodidata, ela construiu boa parte de sua formação por meio da própria curiosidade e de uma busca persistente pelo conhecimento musical.

 “Sou autodidata e foi uma busca solitária para aprender o instrumento, aprender a compor e construir minha carreira.”

A mudança para São Paulo representou outro capítulo importante. Segundo Roberta, a cidade abriu novas possibilidades e também despertou uma relação profunda com o ambiente urbano.

 “São Paulo me acolheu com muito amor, acolheu a minha música.”

A metrópole passou a integrar sua experiência artística, seja pela poesia das ruas, pelas pessoas ou mesmo pela solidão experimentada durante o período de adaptação.

Quando a independência virou escola

Em 2008, Roberta Campos lançou Para Aquelas Perguntas Tortas, trabalho realizado de maneira independente e que representou um importante laboratório para sua formação profissional.

Sem grandes recursos financeiros, a artista precisou aprender diferentes etapas do processo de produção musical. Ela relata que adquiriu equipamentos básicos, aperfeiçoou seus conhecimentos de violão e aprendeu a utilizar ferramentas de gravação, além de participar de etapas como montagem do encarte, mixagem e masterização.

O processo foi intenso.

 “Foram dois meses intensos, no final do ano de 2007, em que eu começava todos os dias às 8h da manhã e parava somente às 20h.”

A experiência ultrapassou a dimensão técnica. Para Roberta, aquele primeiro disco ajudou a revelar sua própria identidade.

“Meu disco ‘Para Aquelas Perguntas Tortas’ me preparou pra tudo que veio depois.”

A independência, nesse sentido, não foi apenas uma condição de produção. Tornou-se uma escola.

Ao dominar diferentes etapas da criação, a cantora passou a compreender melhor a própria linguagem e chegou mais preparada às experiências profissionais que viriam posteriormente.

Da produção independente às grandes oportunidades

O bom desempenho do primeiro trabalho abriu caminho para uma nova etapa profissional, com a contratação pela Deck.

A mudança trouxe novas estruturas, produtores, músicos e possibilidades de divulgação, mas, segundo Roberta, não significou abandonar suas características fundamentais.

 “A minha essência é sempre o que permanece independente de qualquer coisa que altere no mundo.”

O violão, a escrita, a voz e a maneira particular de construir suas canções continuam, para ela, como elementos fundamentais.

Roberta também mantém o hábito de realizar pré-produções em casa, comparando esse processo ao desenho de uma canção que posteriormente recebe novas cores.

Em 2010, lançou Varrendo a Lua, primeiro disco de estúdio, ampliando sua presença no mercado musical. No ano seguinte, a faixa-título entrou na trilha sonora de MALHAÇÃO CONECTADOS da Rede Globo.

A partir daí, suas composições passaram a integrar outras produções audiovisuais. Atualmente, Roberta contabiliza 21 participações em trilhas sonoras de novelas, uma experiência que ela considera especialmente significativa.

Quando uma canção passa a fazer parte de uma história

Para a compositora, a relação entre música e dramaturgia possui uma força particular.

 “A música aliada a uma história que foi construída por alguém, ajuda a traduzir aquela imagem e chega ao telespectador com uma força inimaginável.”

Uma canção inserida em uma novela pode deixar de ser apenas uma composição e passar a fazer parte da memória afetiva de quem acompanhou determinada história.

Roberta destaca justamente essa capacidade de associação entre música, personagens e momentos da vida.

“Quando ela escuta, que seja anos depois, ela é levada para aquela trama e principalmente para tudo que ela vivia naquele momento.”

Além da visibilidade, a presença em trilhas pode ampliar as possibilidades profissionais do artista, alcançando novos públicos e contribuindo para a circulação de sua obra.

Para Roberta, entretanto, existe também uma dimensão emocional.

 “Eu amo a sensação de assistir uma novela e ouvir a minha música tocando, me emociono, sou grata por ter vivido isso por 21 vezes e desejo vida longa a esta experiencia.”

MPB, folk, pop rock e muitas outras referências

A música de Roberta Campos não se limita a uma única classificação. MPB, folk e pop rock dialogam com uma extensa formação musical construída ao longo da vida.

Entre suas referências estão artistas como Joni Mitchell, Bob Dylan, Joan Baez, Nick Drake, Sheryl Crow e Beatles, além de nomes fundamentais da música brasileira.

Roberta também cita Kid Abelha, Paulinho Nogueira, Roberto Carlos, Maria Bethânia, 14 Bis, Clube da Esquina, Elis Regina, Guilherme Arantes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Marisa Monte, Legião Urbana e Tom Jobim.

Essa diversidade não aparece como uma fórmula planejada, mas como resultado natural de sua experiência.

 “A minha música é o que eu vivo.”

A curiosidade também teve papel importante nesse processo. Durante determinado período, Roberta trocou cartas e materiais musicais com pessoas que conheceu por meio de espaços de intercâmbio cultural relacionados a revistas de música. Fitas K7, VHS e gravações de apresentações internacionais ampliaram ainda mais seu repertório.

Experiências como essas ajudaram a formar uma artista que prefere enxergar a criação musical como resultado de muitas referências, algumas conscientes e outras que permanecem escondidas na memória.

Internet: liberdade, excesso e velocidade

Roberta acompanhou diferentes fases da transformação da indústria fonográfica. Quando iniciou sua carreira profissional, a internet já modificava profundamente o mercado.

Hoje, publicar uma música tornou-se tecnicamente mais acessível, mas a facilidade trouxe novos desafios.

“Hoje tudo ficou mais fácil, no sentido de você apresentar o seu trabalho.”

Ao mesmo tempo, ela observa que existe uma quantidade enorme de lançamentos e conteúdos disputando a atenção do público.

“Vivemos um momento meio conturbado, mas eu faço minha música mirando a mesma direção de antes, no coração de quem a escuta e é tocado a se conectar comigo.”

A artista também critica a velocidade com que determinados conteúdos são consumidos e a lógica de formatos que podem pressionar músicos a seguir tendências.

Roberta afirma gostar da internet e das possibilidades de comunicação proporcionadas pelas plataformas digitais, mas prefere preservar sua liberdade criativa.

 “Gosto de ficar mais livre e ser como eu sou, real.”

O palco como encontro

A transformação do mercado musical também modificou as formas de sustentabilidade profissional. A venda de discos perdeu espaço para outras fontes de receita, enquanto shows e apresentações ao vivo ganharam importância.

Roberta iniciou sua carreira profissional justamente em um período de mudanças no mercado fonográfico, mas afirma que sempre encontrou nos palcos uma de suas maiores motivações.

“Eu amo estar nos palcos, com toda certeza, mesmo se vendesse muito disco, eu iria fazer shows, porque é o meu maior combustível.”

Para ela, a apresentação ao vivo representa uma troca direta com o público, algo que não pode ser totalmente reproduzido pelas plataformas digitais.

A artista reconhece, porém, que a velocidade das novas tecnologias também modificou a maneira como as pessoas vivenciam a cultura.

“Com essa propagação de tanta coisa na internet, tanta distração, velocidade, tirou muito o romantismo das nossas vivencias.”

Informação não significa necessariamente formação cultural

O excesso de conteúdo disponível na internet é outro ponto abordado por Roberta.

Na avaliação da cantora, a velocidade do consumo pode dificultar a descoberta de trabalhos que exigem mais atenção e tempo.

“As pessoas ficam viciadas em consumir o que gera dopamina de imediato, assim, deixam todo o resto pra depois.”

Para ela, esse comportamento não se restringe à música. A questão envolve a relação contemporânea das pessoas com informação, cultura e conhecimento.

A reflexão levanta um desafio importante para artistas e público: como preservar a curiosidade em um ambiente no qual milhões de conteúdos aparecem diariamente?

 O acesso à cultura começa cedo

Ao falar sobre democratização cultural, Roberta aponta a educação e o ambiente familiar como espaços fundamentais para o desenvolvimento da curiosidade.

 “Tudo começa em casa e na escola.”

A artista também chama atenção para as desigualdades sociais que dificultam o acesso à produção cultural em diferentes regiões do Brasil.

Ao mesmo tempo, reconhece iniciativas e equipamentos culturais que ampliam o contato do público com diferentes linguagens artísticas.

A discussão revela que democratizar a cultura não significa apenas disponibilizar conteúdo. É necessário criar condições para que crianças, jovens e adultos tenham oportunidade de conhecer, experimentar, pesquisar e desenvolver suas próprias referências.

 Diversidade cultural e políticas públicas

Questionada sobre a importância de políticas públicas destinadas a diferentes gêneros musicais, Roberta defende uma visão ampla da cultura.

“É fundamental que o Poder Público promova políticas que abranjam diversos gêneros musicais.”

Para a artista, a diversidade cultural amplia as possibilidades de percepção e expressão da sociedade.

 “Uma política cultural saudável deve buscar e garantir que diversas formas de expressão coexistem.”

Sua visão também relaciona música e identidade.

 “A riqueza da cultura brasileira sempre esteve na sua pluralidade.”

A declaração dialoga com a própria trajetória da cantora, construída a partir do encontro entre diferentes referências musicais brasileiras e internacionais.

Parcerias que ampliam caminhos

Ao longo da carreira, Roberta Campos dividiu experiências musicais com artistas como Nando Reis, Humberto Gessinger, Zélia Duncan, George Israel, Marcelo Camelo, Marcelo Jeneci, Natiruts e Luiz Caldas.

Para ela, uma parceria musical representa muito mais do que a simples participação de dois artistas em uma gravação.

 “A música apenas vai e isso é a magia da parceria pra mim.”

A cantora compara esse processo a uma semente que ganha novos caminhos quando encontra outro artista.

“A nossa canção é um girassol aberto, apontando para lugares que nem a gente mesmo mirou.”

Existe ainda a dimensão humana dessas colaborações: amizade, troca de ideias, diferentes públicos e experiências que se transformam em MÚSICA.

Quando a canção encontra a história de alguém

Talvez uma das dimensões mais significativas de uma carreira artística seja descobrir que uma obra deixou de pertencer exclusivamente ao seu criador.

Roberta afirma que recebe relatos de pessoas que associam suas músicas a momentos importantes de suas vidas.

 “Significa muito e dá sentido a tudo.”

A artista também revela uma relação pessoal e profunda com a própria música.

 “A música me salvou, me salva todos os dias, me cura.”

Quando alguém compartilha uma história pessoal na qual uma composição esteve presente, o trabalho artístico ganha outro significado.

 “A coisa mais incrível na vida é alguém chegar pra você e contar a sua história e concluiu falando que a minha música estava ali como uma peça muito importante.”

 Autenticidade como escolha artística

Em uma indústria marcada por tendências, algoritmos e mudanças constantes, Roberta Campos mantém uma posição clara sobre a relação entre criação e mercado.

Para ela, a música não deve perder sua verdade para atender a uma fórmula.

 “Eu não trato e nunca vou tratar a minha música como comércio.”

A artista acredita que a autenticidade é justamente o elemento capaz de criar uma conexão verdadeira com o público.

“A verdade e o coração que você deposita na sua arte é o diferencial de tudo.”

Nessa perspectiva, a música pode atuar como ferramenta de sensibilização e diálogo porque permite que diferentes pessoas se reconheçam em experiências, sentimentos e narrativas.

 Um conselho para quem está começando

Aos jovens compositores, cantores, instrumentistas e bandas independentes, Roberta resume sua orientação em quatro ideias: identidade, estudo, dedicação e paixão.

 “Seja você, estude, trabalhe bastante, ame o que você faz e coloque isso no seu trabalho.”

E completa com uma frase que sintetiza boa parte de sua própria trajetória:

 “Não queira o mais fácil; queira o mais bonito, o que vem da sua alma.”

 Uma trajetória construída com verdade

A história de Roberta Campos mostra que uma carreira musical pode nascer de condições adversas e, ao mesmo tempo, ser construída por meio de curiosidade, persistência, trabalho e identidade.

Da menina que encontrou na música um “respiro” à artista que passou a integrar trilhas sonoras, dividir gravações com nomes importantes da música brasileira e construir uma relação duradoura com seu público, existe um elemento que permanece: a busca pela autenticidade.

Sua trajetória também evidencia as transformações do próprio mercado musical. O estúdio doméstico, a gravadora, o rádio, a televisão, as novelas, os palcos, a internet e o streaming representam diferentes capítulos de uma mesma história.


No encerramento da entrevista ao PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER e REVISTA LUSARTE, Roberta Campos deixa uma mensagem de gratidão aos ouvintes que acompanham sua caminhada:

 “Muito obrigada pelo carinho que vocês têm com minha música e, comigo! Vocês são muito importantes para que eu continue sempre espalhando minha canção pelo mundo! Grande beijo!”

Em tempos de consumo acelerado e mudanças permanentes, sua trajetória reforça uma ideia essencial para a cultura:” A tecnologia pode transformar os caminhos pelos quais uma música chega ao público, mas é a verdade presente na obra que pode fazer com que ela permaneça na memória e na História.”



PANORAMA CULTURAL | POR JOHANN PEER/REVISTA LUSARTE 

Jornalismo, música, arte e cultura em diálogo com o Brasil e Portugal para o mundo.

Entrevista especial com Roberta Campos — conteúdo produzido para fins jornalísticos e culturais, valorizando a trajetória artística, a produção musical e a diversidade cultural brasileira, com a colaboração de Maury Oliveira (Assessoria de Imprensa- Roberta Campos). E, parceria com a REVISTA LUSARTE da Editora e Curadora de Artes ROSÂNGELA HEBERT.

Johann Peer é jornalista (MTB/SP nº 68.158), filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (nº 23.681), jurado da 20ª edição do Concurso Autorais SMPENG 2026, Embaixador do TOUR ROCK BRASIL em Peruíbe-SP através da Comunicadora, Apresentadora e Jornalista Kaká Schwartzmann além de vocalista, compositor, poeta, escritor e ativista cultural da banda PEER & INUMANOS.

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