Artista e produtora cultural de Salvador, Letícia de Freitas consolida uma trajetória que une música, formação, comunicação estratégica e fortalecimento da cena periférica
Por Johann Peer
SALVADOR (BA)— Em um cenário em que a cultura independente brasileira ainda enfrenta escassez de recursos, dificuldade de circulação e invisibilidade institucional, algumas trajetórias se destacam não apenas pela produção artística em si, mas pela capacidade de criar estruturas de permanência, articulação e impacto real no território. É nesse contexto que se afirma a atuação de Letícia Costa de Freitas, conhecida artisticamente como LENDALA.
Artista, produtora cultural, estrategista e articuladora de redes, Letícia vem consolidando em Salvador uma presença que ultrapassa o campo da realização de eventos ou da atuação pontual na cena. Seu trabalho se organiza em torno de uma lógica mais ampla: fortalecer artistas, ampliar repertórios, construir espaços de circulação e desenvolver ferramentas concretas para a sustentabilidade da cultura independente.
Mais do que acompanhar a cena, LENDALA atua diretamente em sua arquitetura.
Cultura como estrutura, presença e transformação
Ao longo de sua trajetória, Letícia vem desenhando um modelo de atuação que integra arte, comunicação, pesquisa, formação e estratégia cultural como partes inseparáveis de um mesmo projeto de transformação.
Sua prática se distancia da visão limitada da cultura como simples entretenimento ou produto isolado. Em vez disso, ela a compreende como campo de pertencimento, mobilização, construção simbólica e reorganização coletiva da experiência urbana e periférica.
Esse entendimento se materializa em ações que buscam não apenas movimentar agendas ou produzir eventos, mas criar condições de existência e continuidade para artistas e projetos que frequentemente permanecem à margem dos grandes circuitos de visibilidade.
Uma atuação enraizada no território e voltada à cena independente
A força do trabalho da Artista e Produtora LENDALA está justamente em sua leitura do território. Sua atuação dialoga com as urgências da cena cultural soteropolitana e periférica, propondo caminhos mais orgânicos, acessíveis e conectados à realidade de quem produz arte fora dos centros tradicionais de legitimação.
Ao apostar em processos colaborativos e em redes de fortalecimento mútuo, Letícia se insere em uma geração de agentes culturais que compreende a produção como algo que vai além do palco: produzir também é pensar circulação, narrativa, pertencimento e permanência.
LENDALA como eixo de criação e articulação cultural
Entre os projetos que sintetizam essa visão está a própria construção de sua atuação sob o nome artístico LENDALA, a partir da qual Letícia desenvolve projetos culturais independentes voltados à promoção de artistas, à convivência criativa e à circulação de diferentes linguagens.
A proposta nasce como resposta à necessidade de construir espaços de expressão e encontro fora das engrenagens mais engessadas da indústria cultural. Dentro dessa perspectiva, sua atuação articula música, poesia, artes visuais, formação e experiências coletivas, propondo ambientes em que a arte aparece como experiência viva e acessível.
Mais do que um selo de atuação, LENDALA se afirma como presença política, cultural e simbólica, ajudando a conectar pessoas, ampliar visibilidade e fortalecer trajetórias criativas a partir de uma lógica mais humana e territorial.
Sarau do Porto: arte como encontro, escuta e presença comunitária
Outro braço importante dessa caminhada está na produção e curadoria do Sarau do Porto, iniciativa que se consolida como espaço de expressão, circulação artística e valorização da cultura local.
O projeto reúne diferentes linguagens e promove o encontro entre artistas e comunidade, funcionando como um território de troca, escuta e afirmação da produção independente. Ao abrir espaço para criadores emergentes e incentivar a diversidade estética, o Sarau do Porto fortalece a cena cultural de base e amplia o acesso à experiência artística.
Mais do que uma programação cultural, o sarau se apresenta como um gesto de reconstrução de vínculos em um tempo marcado pela fragmentação social e pela precarização dos espaços de convivência.
Nesse contexto, a curadoria de Letícia revela um entendimento importante: **a arte também precisa ser pensada como espaço de partilha e presença coletiva**.
Autoria Marginal: comunicação como extensão da obra
Se a produção cultural cria o acontecimento, a comunicação é o que ajuda a garantir sua permanência. Foi a partir dessa percepção que nasceu a Autoria Marginal, estrutura criada por Letícia para desenvolver estratégias de comunicação, identidade e narrativa para artistas e projetos culturais independentes.
A iniciativa responde a uma fragilidade recorrente da cena alternativa: a dificuldade de transformar potência artística em presença pública consistente. Muitos projetos relevantes acabam tendo baixa circulação não por falta de qualidade, mas por ausência de clareza narrativa, posicionamento e construção estratégica de imagem.
Na Autoria Marginal, Letícia atua justamente nesse ponto de travessia, ajudando artistas e iniciativas a organizar:
* identidade
* linguagem
* narrativa
* posicionamento
* presença digital
* coerência estética
Mais do que divulgar, a proposta busca comunicar a essência da obra sem esvaziar sua singularidade.
SUBTERRA: pesquisa cultural como ferramenta de leitura e criação
Outro diferencial importante de sua trajetória está na dimensão investigativa de seu trabalho, materializada no SUBTERRA, núcleo de pesquisa voltado ao estudo de estéticas, narrativas e comportamentos na música e na cultura contemporânea.
O projeto se dedica à observação crítica de movimentos culturais, linguagens artísticas e dinâmicas do mercado, produzindo reflexões que ajudam a compreender transformações em curso no ecossistema criativo atual.
Essa camada analítica não aparece como algo distante da prática. Pelo contrário: ela alimenta diretamente processos de criação, comunicação e desenvolvimento de projetos.
Ao construir essa ponte entre leitura crítica e ação concreta, Letícia demonstra um entendimento sofisticado do cenário contemporâneo, em que produzir cultura também exige repertório, interpretação de contexto e inteligência estratégica.
Subestratégia Musical: método para fortalecer trajetórias autorais
Essa mesma lógica se desdobra na criação da Subestratégia Musical, metodologia voltada à construção de identidade, narrativa e posicionamento para artistas independentes.
Em um ambiente em que muitos músicos são empurrados para a improvisação permanente, a proposta surge como um caminho mais estruturado para organizar processos de desenvolvimento artístico e presença pública.
A metodologia articula dimensões como:
* estética
* comunicação
* coerência de linguagem
* narrativa artística
* posicionamento digital
* continuidade de trajetória
A iniciativa se mostra especialmente relevante em um tempo em que a carreira musical já não depende apenas da obra, mas também da capacidade de construir presença, leitura de si e consistência no ambiente público.
SYLLABUS: formação como ferramenta de autonomia cultural
Se existe um eixo que sintetiza de forma ainda mais profunda o compromisso de Letícia com a transformação cultural, esse eixo é a formação. É justamente nesse território que ganha força o SYLLABUS, proposta voltada à organização de trilhas de aprendizado em produção cultural, comunicação e estratégia artística.
A iniciativa foi criada para sistematizar conhecimentos práticos e torná-los acessíveis a jovens, artistas e agentes culturais que desejam atuar com mais autonomia dentro da economia criativa.
O alcance do projeto já demonstra sua relevância: mais de 460 pessoas ativas participam dessa construção formativa. Além disso, a expansão do trabalho deu origem ao Polo Mulheres da Arte Syllabus, que reúne mais de 120 mulheres em uma rede voltada ao fortalecimento, à troca de saberes e ao desenvolvimento coletivo.
Em um país onde o acesso à formação cultural e à profissionalização criativa ainda é profundamente desigual, o SYLLABUS se afirma como uma iniciativa de alto valor social, simbólico e político.
Formação, estratégia e cultura de base como projeto de futuro
A trajetória de Letícia Costa de Freitas se destaca justamente por não se limitar ao discurso sobre a importância da cultura. Seu trabalho cria estrutura, método, circulação e possibilidade real de continuidade.
Em um cenário em que muitos artistas e projetos culturais ainda enfrentam isolamento, invisibilidade e ausência de suporte, sua atuação demonstra que fortalecer a cultura também significa desenvolver:
* ferramentas
* redes
* repertório
* autonomia
* inteligência estratégica
* espaços de permanência
Ao integrar prática cultural, pensamento crítico e construção coletiva, Letícia vem ajudando a redesenhar as condições de existência da arte independente em seu território.
Na contramão da superficialidade e da lógica descartável que frequentemente atravessam o ambiente cultural contemporâneo, LENDALA constrói uma atuação marcada por profundidade, articulação e compromisso com o futuro.
Sua presença na cena independente soteropolitana revela não apenas uma produtora de projetos, mas uma formadora de caminhos, estrategista da permanência e articuladora de redes criativas.
Ao transformar arte em estrutura, comunicação em ferramenta de emancipação e formação em potência coletiva, Letícia reafirma um princípio essencial: a cultura só se fortalece de verdade quando cria condições para que mais pessoas possam existir, produzir e permanecer dentro dela.
E é justamente nesse ponto que seu trabalho deixa de ser apenas relevante — para se tornar necessário.
Serviço
**Nome artístico:** LENDALA
**Nome civil:** Letícia Costa de Freitas
**Cidade:** Salvador (BA)
**Atuação:** Arte, produção cultural, estratégia, formação e comunicação cultural
Frentes de atuação destacadas
* Produção cultural independente
* Curadoria e circulação artística
* Comunicação estratégica para artistas
* Pesquisa cultural
* Formação e desenvolvimento criativo
* Fortalecimento de redes periféricas
Por Johann Peer
Jornalista cultural, escritor, poeta, compositor e vocalista da banda **Peer & Inumanos**. Registro profissional: **MTB/SP 65.158**.