1)Você é uma lenda da produção fonográfica independente do Brasil.Em qual momento de sua vida resumiria essa saga?!
Eu nunca tinha me dado conta de que nosso trabalho tinha alguma importância no sentido de ser cultural, , até que a Marcia Tosta Dias , uma escritora, propôs de fazer um livro contando a história sobre o nosso selo , a Baratos Afins, , e ela já tinha essas descrições de meu personagem, mas eu acho que quem começou espalhar essas fake News ai, foi o Eddy Teddy do Coke Luxe, em todos as apresentações de sua banda (que não foram poucas) , ele sempre dizia , “meu disco foi produzido pelo legendário Luiz Calanca da lendária Baratos Afins” , kkkkk, . E teve gente que acreditou!.
2) A Baratos Afins é considerada a âncora da Galeria do Rock e mesmo a Alma cultural desse centro comercial. Como você tem enfrentado essa revolução digital que desmaterializa os produtos culturais?
Nunca tinha pensado nessa coisa da Baratos Afins ser a ancora, mas talvez tenha sido mesmo, por eu chegar primeiro e com o propósito de fazer algumas produções de disco exclusivamente para minha loja, eu tenho que admitir que meu negócio foi próspero e despertou um interesse pela concorrência logo os números de lojas se multiplicaram chegou a ter 84 lojas de discos , e mais tarde 21 delas também era loja e selo como nós, mas infelizmente a grande maioria dessas lojas ou desistiram ou mudaram de endereço. Hoje o espaço só tem 12 lojas de discos, muitas delas como a minha não é só de rock, para podermos resistir, mesmo enfrentando toda essa revolução digital que infelizmente massacrou a alma cultural da galeria, temos que enfrentar também a nossa administração, que em nome de toda nossa classe, “bazófia” para a mídia, que a galeria é quem faz cultura…, tem lá o “instituto cultural galeria do rock” , mas que em contrapartida não agrega nada para o condomínio.
3)Lembre alguns fatos curiosos de seu trabalho de produtor com alguns dos mais criativos artistas Brasileiros:
Quando eu estava produzindo o primeiro disco Solo do Catalau, depois que ele saiu do Golpe de Estado, o Lanny Gordin era o guitarrista convidado e tinha ensaiado para tocar praticamente em todas as músicas e nós estávamos no meio da gravação e ele acendeu um cigarro na técnica do estúdio, ai o assistente deu uma bronca, danada, Pô cara! Não pode fumar aqui dentro! vá fumar lá fora! Ele foi e não voltou mais. Kkkkk
4)Sua Loja é um Ponto de encontro e você é muito popular. Nunca pensou em entrar para a politica e defender mais democracia cultural?
Nossa que horror! Eu odeio a política do Brasil, nada que um político fala de manhã se sustenta de tarde.
5)Você é considerado um profeta da contracultura, pois previu o fim do CD antes do fim do vinil. Tede Silva diz que pensou nisto quando viu a Barnes and Nobles, mais importante livraria na 5 avenida em NY repleta de LPs na vitrine em pleno 2017. Como você prevê agora o futuro do comércio de música no Brasil e no mundo?
Eu nunca acreditei no CD , mas acho até que CD durou muito mais do que eu imaginava, a indústria da música além do lado artístico sempre tentava vender novidades que ficavam obsoletos num curto espaço de tempo , isso na área de aparelhos sonoros , mas o que eles estavam propondo era mesmo enterrar o disco de vinil, que tinha uma resistência comprovada de mais de 50 anos , eu disse: isso não vai pegar, e fiz de brincadeira para zoar uns amigos uma camiseta em protesto ao Cd e em louvor ao vinil com as inscrições, Back To Mono, tinha a foto de uma válvula, uma cápsula com agulha , a palavra No Digital, e uma soma de 33 + 45 = 78 que eram as três rotações tradicionais para rodar o disco de vinil. Vendi mais de 300 camisetas era só uma brincadeira, mas claro que isso me custou muito caro, perdi amigos e clientes, alguns gostaram , mas outros detestavam , a imprensa diziam que eu retrógrado , o último ,moicano do Vinil, que eu estava enciumado porque eu tinha um mar de discos que não valia mais nada que o som da hora era a muito cara bolachinha digital . até que a Revista Veja me deu a pagina amarela para eu fazer o meu protesto , a matéria saiu com a manchete, que voltem os bolachões . onde eu escrevi o que realmente pensava sobre a indústria fonográfica e o CD. E aquilo ficou pior ainda para mim deu uma repercussão muito forte, cheguei a receber cartas da Holanda e do Japão, me parabenizando pela matéria, mas o pessoal do Brasil não me perdoava mesmo, então resolvi ceder, fazer as pazes com o CD e investir pesado no formato, ofertando Cds novinhos em troca de velhos discos de vinil. E foi a maior guinada econômica de minha vida, eu estava certo e me dei bem, e foi daí que começaram me chamar de visionário, e essas coisa, mas na verdade o CD até que durou demais, , mas a muito tempo que já esta agonizando e sem vacina contra o Pen Drive que já ameaça a substituí-lo , mas ainda está ai, Mas, porém não podemos negar a cultura do vinil foi realmente massacrada, hoje as tiragens são bem modestas o obviamente os custos ficaram muito mais alto ,e não é só por isso que o CD não morre , muitas pessoas se acomodaram e ainda preferem a ordinária praticidade de manusear um CD, ou um Pen Drive .
6) Luíz Calanca, a chamada indústria do entretenimento passou a impor ditames de comportamento aonde o público passou a ser a principal “estrela” e “protagonista do Universo do Show Biz em detrimento da relevância do que se faz no palco.Como você vê esta situação?
Penso ser que talvez seja os efeitos maléficos que a internet impregnou na cultura.
7)Partindo desse princípio, há o culto maçico e irrestrito de “personagens do entretenimento” em caráter artificial e superficial (Aonde diz-se que o que vende é o que o povo quer ouvir,quanto mais raso,alienante e de rápida propagação melhor),em contrapartida prop
ugna-se o total processo de engavetamento, esquecimento, ostracismo e rarefação dos conteúdos artísticos de maior capacidade de elaboração, profundidade e reflexão. Há alguma perspectiva de mudança deste estado de coisas a médio ou a longo prazo?
A mídia manipula tudo de acordo com seus interesses, hoje o alvo do consumo de massa está nos interesses do agronegócio. Então a bola da vez na área do entretenimento é o “sertanejo universitário “ e a sofrência criada pela chamada indústria do entretenimento,e até então amplamente difundida pela Marília Mendonça (*1995/+2021), a única perspectiva de mudança é quando raramente o patrocinador indica , ou quando algum reconhecimento vem de fora do pais para alguma coisa que estava no ostracismo aflore.
8)Atualmente, somos 11 milhões de Agentes e Produtores Culturais no país inteiramente órfãos de políticas públicas no sentido de melhorar as condições de trabalho dessa categoria que foi inclusive a mais afetada com a pandêmia do Covid19.Na sua opinião como reverter este processo?
A primeira medida do governo Bolsonaro depois de tomar posse foi extinguir a lei Rouanet e o ministério da cultura (MinC) por meio de decreto. E colocou o setor subordinado a uma secretaria do recém criado Ministério da Cidadania que englobaria ainda esporte e desenvolvimento social, Henrique Pires, Ricardo Braga, Roberto Alvim, (aquele da polemica citação de Joseph Goebbels ministro de Hitler na Alemanha nasista) e a atriz Regina Duarte , nenhum deles se sustentaram no cargo. Essa pasta neste governo praticamente nunca existiu. A única saída para reverter este quadro é : “fora Bolsonaro “.
9) Deixe seu recado para milhares de artistas, músicos, funcionários, personalidades, fãs e assíduos frequentadores, que junto contigo, fazem parte da História da lendária Baratos Afins e por conseguinte da cena Rock Nacional:
Que eles não desistam nunca de lutar conta essa tenebrosa pandemia que assusta todas as pobres de nós vidas humanas. Essa falta de motivação deve ser passageira e se você é musico e não está podendo no momento se apresentar para seu público, aproveite esse tempo longe dos palcos para criar e subir mais um degrau com fé, afinal de cada sementinha enterrada pode brotar grandes frutos.
Muito obrigado.
Eu e a equipe do blog PANORAMA CULTURAL é quem agradecemos tua honrosa e mais que especial contribuição para a Arte e Cultura de qualidade através da difusão do Rock e Música por excelência, a frente da Baratos & Afins e por ter nos prestigiado com esta excelente matéria.
Johann Peer é Jornalista responsável pelo número 65.158 MTB/SP e também vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.

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