Panorama Cultural Johann Peer

domingo, 1 de março de 2026

Claudio Magalhães: entre o romance, o rock e a resistência literária

 



Escritor, contista e historiador musical reflete sobre trajetória, mercado editorial, inteligência artificial e os desafios da leitura no Brasil

Poeta na juventude, romancista na maturidade e historiador musical por vocação, Claudio Alexandre Magalhães construiu, desde os anos 1980, uma trajetória marcada pela inquietação criativa e pelo amor ao rock and roll. Autor de obras como O Infinito em Nós (1987), O Cemitério do Bosque (2017), Contos e Lendas da Escuridão (2020) e Cidade de Prata (2024), ele transita entre o terror, o romance, o conto e a crítica cultural. Nesta entrevista ao blog PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER, o escritor fala sobre seus primeiros passos na literatura, o impacto da música em sua formação, os bastidores do mercado editorial brasileiro e sua visão contundente sobre inteligência artificial e leitura no país.

A paixão pela escrita surgiu ainda na adolescência. Claudio recorda que, na escola, sempre se destacava nas redações. O ponto de virada ocorreu por volta de 1984, quando uma professora de literatura, Maura, percebeu seus textos e o incentivou a levá-los adiante.

Ao apresentar seus poemas, foi encaminhado ao escritor Cacildo Marques, que o conduziu à Editora Scortecci. Nascia ali o embrião de sua primeira obra, O Infinito em Nós, lançada em 1987 com tiragem aproximada de 300 exemplares, patrocinada por um gerente do banco onde trabalhava.

O livro reunia poemas e crônicas escritos desde 1984, marcados por forte lirismo juvenil e temas universais como ar, água, vento, lua e sol. “Havia uma grande paixão de adolescente”, relembra.

O amor pelo rock and roll começou no fim de 1979, ao ouvir Chronicle, do Creedence Clearwater Revival. Contudo, foi em 1980, ao escutar Hotter Than Hell, do Kiss, que “o coração bateu diferente”. A partir dali, a música tornou-se parte essencial de sua identidade.

Frequentador assíduo da Galeria do Rock e da loja Eric Discos, em Pinheiros, Claudio desenvolveu um olhar crítico sobre a cena musical. Posteriormente, assinou coluna no jornal Cotia Agora, dedicando-se principalmente a críticas de shows.

Ele também levou sua bagagem cultural para programas como Artnight Cultura Noturna, no YouTube, e o quadro 10+1, no Instagram, onde compartilha histórias e curiosidades do universo musical. “Muitas vezes nem programo o que vou falar; são memórias acumuladas de anos de rock and roll”, afirma.


Após O Infinito em Nós, Claudio publicou As Diversas Fases do Tempo (1991), obra mais sentimental e introspectiva, revelando amadurecimento na escrita. Já Flores de Inverno (1994) apresentou um romance adolescente de viés espiritual, indicando nova fase criativa.

Sua participação na 13ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 1994, ainda jovem e tímido, foi marcante. “Percebi que não era o meu momento ainda”, reconhece.

Com o tempo, a poesia deu lugar ao romance. Embora ainda publique versos — como em Poesias Para Uma Noite Solitária (2023), lançado digitalmente —, Claudio se define hoje como romancista. “Passei pela fase de poesias. Hoje me dedico a romances de terror, amor ou policial.”

Em 2017, lançou O Cemitério do Bosque, romance de suspense com elementos apocalípticos. A trama acompanha quatro jovens que tentam impedir que forças demoníacas dominem uma região estratégica para a conquista da Terra. A narrativa envolve personagens complexos, como o Padre Enda, amaldiçoado por trair Cristo; Sinne Lelie, fada líder de bruxas; e Anderson, herdeiro de uma linhagem envolvida na morte de entidades malignas.

A obra abriu caminho para Contos e Lendas da Escuridão (2020), que vendeu mais de dois mil exemplares. O sucesso ocorreu mesmo durante a pandemia, quando eventos presenciais foram cancelados. Claudio investiu em divulgação direta, promoções com brindes e vendas pessoais em pontos icônicos como a Galeria do Rock e a Woodstock Discos.

Já Cidade de Prata (2024) enfrentou entraves contratuais e atrasos editoriais. O lançamento contou com incentivo da Lei Paulo Gustavo, permitindo ao autor adquirir exemplares próprios para comercialização. A obra foi apresentada em espaços culturais como o Open Mall The Square, o Café Quanti e a Biblioteca Batista Cepelos, em Cotia, onde vendeu cerca de 800 cópias.

Claudio observa que, no modelo independente, o autor arca com custos de produção, mas mantém 100% do lucro das vendas. Em editoras tradicionais, por outro lado, recebe entre 3% e 19% do valor de capa.

Para ele, o mercado brasileiro ainda enfrenta resistência cultural à leitura. “Só de você dizer que é escritor, muitas pessoas torcem o nariz. Nem mesmo pessoas próximas compram seus livros.”

Ao comparar com Estados Unidos e Europa, aponta maior tradição leitora nesses países, onde autores estrangeiros encontram melhor acolhida.

Sobre o avanço tecnológico, o escritor é categórico: considera a inteligência artificial “o maior retrocesso para a arte”. Para ele, há diferença essencial entre o dom criativo e a geração automática de textos. “Uma coisa é escrever durante um ano; outra é dar um comando e ter um livro em cinco minutos. Não tem sentimento.”

Apesar disso, reconhece o valor de ferramentas tecnológicas como corretores automáticos e editores digitais. “Jamais a tecnologia substituirá o ser humano”, sentencia.

Diante dos índices de não leitores no Brasil, Claudio manifesta preocupação. Ele cita a frase de Nelson Rodrigues — “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade” — para ilustrar o risco da superficialidade interpretativa.

Para o escritor, a solução começa na infância: “A leitura deve vir desde pequeno. Os pais precisam incentivar os filhos. Caso contrário, perderemos uma das maiores formas de cultura da humanidade.”

Embora reconheça a solidão do ofício literário — “o escritor é o sujeito mais solitário no meio artístico” —, Claudio valoriza o contato público em eventos e apresentações. Ainda assim, afirma que as páginas em branco sempre serão preenchidas, independentemente das circunstâncias.

Se precisasse definir qual faceta mais se destaca atualmente, Claudio não hesita: “O romancista.” Ele se orgulha especialmente do impacto de suas narrativas, como o comentário de uma leitora que recomendou ler Contos e Lendas da Escuridão “com uma vela e um crucifixo na mão”.

Aos jovens que desejam ingressar na literatura, aconselha: “Seja criativo, deixe preconceitos de lado e esteja sempre do lado certo da história. Um livro é muito mais do que papel; são histórias que mudam vidas.”

Ao encerrar a conversa, Claudio Magalhães faz um apelo em defesa da cultura independente: “Sigam artistas underground, apoíem, comprem seus produtos, assistam às apresentações. Há muita gente talentosa que precisa de visibilidade.”

Entre o romance e o rock, entre a solidão da escrita e a exposição pública, Claudio Alexandre Magalhães segue fiel à própria essência: contar histórias que provoquem reflexão e inquietação — e que resistam, como ele, ao tempo e às transformações do mundo contemporâneo.


Contatos:

Telefone: 98991-4627 E-mail: crivampir@gmail.com 

Site: https://universodaescurida.wixsite.com/universodaescuridao 

Stephanie: https://www.wattpad.com/story/257729647-stephanie Poesias: https://www.wattpad.com/story/257729647-stephanie 

Facebook: Claudio Alexandre Magalhaes 

Instagram: cri.magalhães 

 Artnight cultura noturna Claudiomagalhaesoficial 

Youtube: https://www.youtube.com/@Artnightculturanoturna 


Johann Peer é Jornalista responsável sob o n°65.158 MTB/SP e também vocalista e letrista da banda PEER & INUMANOS.

3 comentários:

  1. Excelente texto e assunto! Só senti falta mesmo da inserção de algumas falas do entrevistado, além da tradução narrada delas. Parabéns pros dois!

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  2. Mestre Cláudio, amigo Johann parabens aos dois. Ótimo quando as coisas são bem feitas.

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