Panorama Cultural Johann Peer

terça-feira, 7 de abril de 2026

Flores de Plástico e The Winter transformam a dor em poesia urbana no single “Lembranças”






Faixa nascida da melancolia amorosa aposta em lirismo cinematográfico, imagética urbana e profundidade emocional para reafirmar a força da sensibilidade dentro da cena independente contemporânea

Olho de destaque

Entre silêncios, ruínas afetivas e paisagens do Rio de Janeiro, “Lembranças” surge como um retrato intenso dos amores inacabados e da arte feita contra a lógica do descarte emocional.


CULTURA | MÚSICA | CENA INDEPENDENTE

Quando a memória dói, a arte responde

Há músicas que não apenas contam uma história — elas a fazem permanecer no ar, como se ainda estivesse acontecendo. “Lembranças”, novo single da banda carioca Flores de Plástico em colaboração com a multiartista The Winter, é exatamente esse tipo de obra: uma canção que transforma ausência em linguagem, silêncio em narrativa e dor em estética.

Em um cenário musical cada vez mais acelerado, efêmero e voltado ao consumo instantâneo, a faixa surge como um gesto raro de profundidade. Com forte carga poética, atmosfera cinematográfica e uma construção imagética marcada por fragmentos de memória, “Lembranças” se firma como uma peça sensível e ao mesmo tempo contundente dentro da produção independente atual.

Mais do que falar sobre o fim de um amor, a música mergulha naquilo que permanece depois dele: os vestígios, os objetos, os lugares, os vazios e as marcas emocionais que seguem ecoando quando já não há mais retorno possível.


Uma canção nascida do que não pôde ser resolvido

Segundo o músico e compositor Murillo Peres, “Lembranças” surgiu quando a dor deixou de ser apenas sentimento e passou a se organizar em imagens, cenas e sensações quase visuais.

“‘Lembranças’ nasceu no momento em que a dor deixou de ser só interna e começou a se manifestar em imagens muito vívidas. Quando a história passou a se organizar quase como cenas na cabeça, ficou claro que aquilo precisava virar música — porque só a música daria conta de traduzir esse tipo de sentimento.”

A fala ajuda a compreender a força central da faixa: ela não se constrói por explicação, mas por evocação. Em vez de descrever linearmente uma separação, a música recorre a símbolos e fragmentos do cotidiano para montar um verdadeiro roteiro emocional.

Fotos rasgadas, taças quebradas, um bilhete esquecido, um cigarro apagado num copo frio. Em “Lembranças”, são os restos que falam.


A beleza da dor sem romantizar a saudade

Um dos grandes méritos do single está justamente em não transformar a dor em adorno. A faixa reconhece a potência estética da melancolia, mas sem esvaziar o incômodo que ela carrega.

“A ideia nunca foi romantizar a saudade, mas encarar o que ela tem de incômodo, de inacabado. A gente quis mostrar a beleza estética da dor, mas sem suavizar o que ela realmente é.”

Esse posicionamento dá à música um peso raro. Em vez de oferecer conforto fácil ou nostalgia embelezada, “Lembranças” encara o afeto interrompido como ele é: confuso, suspenso, mal resolvido.

A canção, nesse sentido, se aproxima de uma geração marcada por vínculos intensos, porém frequentemente atravessados por silêncios, ambiguidades e encerramentos sem conclusão.

“‘Lembranças’ fala muito sobre esses afetos que não encontram um fim claro. Sobre como eles permanecem como ruído, como eco. É quase um retrato de relações que acabam sem fechamento, algo muito presente nas dinâmicas emocionais atuais.”

Mais do que uma canção romântica, o single se impõe como um documento afetivo contemporâneo.


Rio de Janeiro: cenário, símbolo e personagem emocional

Se “Lembranças” tem um poder tão visual, isso também se deve à forma como o Rio de Janeiro atravessa a faixa. A cidade não aparece apenas como ambientação geográfica — ela pulsa como extensão da própria emoção.

O mergulho no Arpoador, a presença do Cristo Redentor à distância, a sensação de beleza atravessada por vazio: tudo isso ajuda a construir a identidade da música e reforça sua força sensorial.

“O Rio de Janeiro influencia diretamente a estética da música. A cidade tem essa dualidade entre beleza e melancolia que conversa muito com a proposta da faixa. Ela não é só cenário, é parte ativa da emoção.”

Essa presença urbana não é decorativa. Ao contrário, ela amplia a canção e a aproxima de um imaginário em que cidade e sentimento se confundem — como se certas paisagens fossem capazes de guardar tudo aquilo que não foi dito.


Imagens que doem: os símbolos da ruptura

Poucas músicas recentes trabalham com tanta precisão o poder simbólico dos detalhes. Em “Lembranças”, o cotidiano vira arquivo emocional.

Versos como “o cigarro apagado num copo tão frio” e “o Cristo Redentor observando tudo à distância” condensam o desgaste, a distância e a impossibilidade de retorno. São imagens simples, mas devastadoras.

“Essas imagens funcionam como símbolos do desgaste emocional. O cigarro apagado, o copo frio, o Cristo observando — tudo isso reforça a ideia de distanciamento, de algo que já aconteceu e agora só pode ser observado, nunca vivido de novo.”

Essa escrita por fragmentos aproxima a faixa da poesia visual e do cinema independente, criando um universo em que cada objeto carrega memória, tensão e ausência.


Flores de Plástico e The Winter: um encontro de atmosferas

A parceria entre Flores de Plástico e The Winter não soa circunstancial — ela soa inevitável. Há na faixa uma unidade estética tão orgânica que o encontro parece fruto de um mesmo universo sensível.

Murillo conta que a colaboração nasceu de forma espontânea, após um show da banda na Audio Rebel, importante espaço da cena alternativa carioca.

“Depois de um show da Flores de Plástico na Audio Rebel, rolou uma conversa com a The Winter e surgiu a ideia de construir algo juntos. Desde o início, houve uma identificação estética e emocional muito forte.”

Na prática, cada projeto trouxe sua própria assinatura, mas sem delimitações rígidas. O resultado é uma fusão artística que fortalece a canção em vez de dividi-la.

“A Flores de Plástico trouxe essa base mais orgânica do Indie Rock e a The Winter acrescentou uma sensibilidade mais etérea e imagética. No fim, tudo se mistura de forma muito natural na faixa.”

Essa soma amplia a experiência de “Lembranças” e ajuda a consolidar a faixa como um trabalho de personalidade própria, forte atmosfera e identidade estética bem definida.


Silêncio também fala — e muito

Outro aspecto que torna “Lembranças” especialmente sofisticada é a maneira como a música lida com o vazio. Há espaços, pausas, respiros. E eles não estão ali por acaso.

“A gente trabalhou muito os espaços na música — tanto na letra quanto nos arranjos. O silêncio foi tratado como elemento narrativo, como se ele dissesse aquilo que as palavras não conseguem.”

Essa escolha revela maturidade composicional e reforça o caráter contemplativo do single. Em tempos de excesso, “Lembranças” aposta no intervalo. Em tempos de hiperestímulo, escolhe o eco.

Essa decisão também pode ser lida como um gesto de resistência dentro do próprio mercado musical.

“Apostar em uma música mais densa e contemplativa hoje é quase ir contra a lógica do consumo rápido — e isso faz parte da identidade do projeto.”

Num ambiente em que a arte é frequentemente pressionada a ser imediata, rápida e descartável, a faixa reivindica tempo, profundidade e permanência.


Um retrato da sensibilidade como resistência

Ao falar de “Lembranças”, Murillo também toca em uma discussão maior: o lugar da poesia, da melancolia e da sensibilidade dentro da cena independente atual.

“A sensibilidade e a melancolia são essenciais. Elas criam profundidade em meio a um cenário muitas vezes acelerado e superficial. A cena independente ainda é um espaço onde isso pode existir com mais liberdade.”

A declaração não é pequena. Ela aponta para o papel da música independente como território de experimentação, verdade e densidade emocional — especialmente em um momento em que tanto da produção cultural é atravessado pela urgência de performance, viralização e permanência curta.

“Lembranças”, nesse contexto, não é apenas uma canção sobre uma ruptura amorosa. É também uma afirmação estética: a de que ainda há espaço para a arte que não tem medo de sentir fundo.


Do single ao cinema: uma obra que pede imagem

Se a música já nasce imagética, não surpreende que exista o desejo de expandi-la para outras linguagens. Segundo Murillo, esse caminho está não apenas no horizonte, mas no próprio DNA da faixa.

“Desde o início, ‘Lembranças’ foi pensada quase como uma peça audiovisual. Existe uma vontade real de expandir isso para clipes, visualizers ou até outros formatos narrativos.”

A declaração confirma algo que já se percebe na escuta: “Lembranças” não se encerra apenas no som. Ela pede imagem, pede desdobramento, pede tela.

E essa expansão não deve parar por aí. A parceria entre Flores de Plástico e The Winter também abre caminho para novos encontros artísticos e para a continuidade de um universo criativo já bastante coeso.

“A colaboração abre portas, com certeza. Existe uma possibilidade real de novos trabalhos juntos, além de uma continuidade estética tanto para a Flores de Plástico quanto para a The Winter. O público pode esperar mais mergulhos nesse universo sensível e cinematográfico.”


O que fica quando tudo acaba?

Talvez a pergunta central de “Lembranças” seja essa: o que sobra quando o amor termina, mas não termina direito?

A resposta da música não é objetiva — e justamente por isso ela é poderosa. O que fica são ruídos, paisagens, objetos, ecos, lacunas e marcas. Fica o que não coube numa despedida limpa. Fica o que não teve fim, apenas distância.

“A gente espera provocar uma reflexão sobre como algumas experiências marcam mais pelo que não foram do que pelo que foram. Sobre aceitar que nem tudo vira uma lembrança bonita — e tudo bem.”

É nesse gesto de honestidade que “Lembranças” encontra sua maior força. A canção não quer maquiar a dor, nem embalá-la para consumo romântico. Ela quer nomear o desconforto, estetizar a ausência e permitir que o ouvinte se veja dentro dela.

E isso, em arte, é das formas mais poderosas de conexão.


O rock como verdade e permanência

Ao encerrar a entrevista, Murillo Peres deixa uma mensagem que funciona quase como manifesto para quem deseja iniciar na música — especialmente dentro do bom e velho rock and roll.

“Escuta muita coisa, desde clássicos como Led Zeppelin, The Rolling Stones e Ramones até bandas atuais e independentes — isso vai te dar repertório e identidade. Mas não fica só copiando: usa essas referências como ponto de partida para encontrar o seu som.”

“Outra coisa essencial é tocar com outras pessoas. Banda é troca, é erro, é evolução coletiva. O rock nasceu disso — de gente se juntando em garagem pra fazer barulho e, sem perceber, criar algo verdadeiro.”

“E talvez o mais importante: não romantiza só o palco. Tem muito ensaio vazio, muita frustração, pouca grana no começo. Mas se você realmente gosta, isso tudo vira combustível.”

“Rock and roll é mais verdade do que perfeição. Então seja honesto no que você cria — porque é isso que conecta.”

Talvez seja justamente essa verdade que faz de “Lembranças” uma faixa tão relevante. Em vez de buscar fórmula, ela busca presença. Em vez de perseguir perfeição, escolhe profundidade.

E, num tempo em que quase tudo passa rápido demais, isso já é, por si só, um ato de permanência.



A união entre a banda Flores de Plástico e a multiartista TheWinter resulta em “Lembranças”, um single que mergulha em afetos interrompidos, silêncios emocionais e imagens urbanas que transformam dor em arte. Com atmosfera cinematográfica, lirismo sensível e forte identidade estética, a canção propõe uma escuta íntima e visual, típica das obras que ultrapassam o formato de música e se aproximam de uma experiência sensorial. Johann Peer 


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*Johann Peer é Jornalista responsável sob o número 65.158 MTB/SP e também, vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS. 

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