Panorama Cultural Johann Peer

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Gigi Jardim ProduRocker

 






1)Como o Rock surgiu no Jardim da tua vida à primeira semente?

Sou filha do Rock’n’roll. Meus pais sempre ouviram. Minha mãe era exímia bailarina de Rock, sabia todos os passos, voleios e piruetas. Dançamos muitas vezes em casa e onde quer que tocasse. Venho de família artística: a boa música sempre esteve presente e o Rock era tão cultuado quanto o tango, o bolero, a MPB, jazz, chorinho. Não me lembro de um único dia da vida em que eu não tenha ouvido música. Ou Rock. Sou abençoada.

2)Falando em semente você vê muitas diferenças entre a árvore genealógica do Rock And ROLL dos seus primórdios até os dias atuais?

Felizmente a evolução aconteceu inclusive no Rock. Mesmo nos primórdios já se percebe diferenças entre o rockabilly dos anos 50, com o Rock eletrificado dos anos 60, sem jamais esquecer que a raiz do Rock é o blues. O verdadeiro pai do Rock é o blues. Depois dos Beatles o mundo todo mudou, musicalmente falando. E o Rock abriu vertentes como o Progressivo e o Metal, por exemplo. Daí vieram os anos 70. E o Rock ganhou cor, tons, sons e possibilidades infinitas, criou o glam e criou o punk. Depois a gente nem sabe mais como segmentar. Hoje, no Brasil, fazemos um Rock único, com pitadas das nossas próprias sonoridades. A arte é viva. Que maravilha, não?

3)Como é ser produtora executiva a frente da Rádio Stay Rock Brazil e de bandas como a lendária quanto longeva Made In Brazil (54 anos) e Crom?

Produção é ralação. Muito trabalho, muita dedicação, muito jogo de cintura, planejamento estratégico e poder de negociação. Muito mais suor que diversão. Tem quem ache que produção é só tirar selfie com artista, mas a vida real é bem mais salgada e pontuda. A vantagem, no meu caso, é que eu faço porque amo. E com amor é sempre mais fácil aguentar toda a pressão que a atividade exige.

4)54 anos de Made In Brazil, como você avalia a trajetória, a contribuição e o legado deste grande grupo para o Rock Nacional?

Somente a Rolling Stones é tão longeva no mundo quanto a Made in Brazil. Nenhuma outra banda no planeta teve tantas formações diferentes ou deu oportunidade a tantos músicos diferentes (estão no Guiness por isso). A grande maioria das bandas que se formaram no Brasil nos anos 70, época de ouro do Rock nacional, se formaram por causa da Made in Brazil, além das inegáveis Mutantes e Tutti Frutti. O Rock brasileiro, de verdade, nasceu na Pompeia. A Made in Brazil nunca se acomodou, flertou com tudo que estava na “moda” na sua época, inovou juntando bateria de escola de samba com Rock’n’roll. Inovou usando maquiagem no rosto e roupas glamurosas. Foi midiática, apareceu no Fantástico. E hoje só não é cultuada como se deve, porque o Brasil não tem uma vocação para celebrar seus ícones e artistas. Estamos numa era do descartável, do simplório. Hoje em dia, quem faz Rock é erudito. Mas a gente gosta é assim mesmo: composições elaboradas, músicos apaixonados e talentosos. Infelizmente o Rock brasileiro é ainda underground na programação cultural regular do País. Mas eu acordo todos os dias, muito bem acompanhada, pra tentar mudar esse panorama. 

5)Qual a expectativa e perspectiva para o grande evento em comemoração aos 54 anos da Made In Brazil, que reunirá grandes bandas e artistas do Rock Brazuca, inclusive um dos grandes nomes do universo Punk brasileiro com 30 anos de estrada, a banda Lepra.

Estou extremamente feliz e realizada porque esse projeto deu certo. Desde de fevereiro, Claiton Jr e eu estamos fazendo curadoria de bandas e repertório para celebrar os 54 anos da Made in Brazil. A participação da banda LEPRA foi FODARALHA. Eles fizeram um versão punk pra uma música que eu adoro, porque sou fã do título. São 54 músicas diferentes, 54 artistas diferentes. Cada um dando a sua própria interpretação aos hits. Porque o que foi pedido foi: faça sua releitura. Tudo o que a gente não quer é um cover. E não tem nenhum. Tem balada-pauleira, pauleira-pauleira, punk, rockabilly, versões inusitadas, muita psicodelia. Vai ficar IMPOSSÍVEL não se apaixonar pelo Tributo. A realização foi surpresa para a Banda até o lançamento da divulgação em 25 de agosto. A data é o aniversário do Oswaldo Rock Vecchione, então não poderia ser mais apropriada. A banda LEPRA devolveu o gênero punk pro nosso set list e isso foi magistral. João Gordo, do Ratos de Porão, e Clemente, da Inocentes, da Fantástica Banda Sem Nome e Plebe Rude, já fizeram participações especiais em shows da Made in Brazil, então o punk está no lugar que merece estar. ADORO!


6)Fale sobre a sua indicação ao prêmio Dynamite Personalidade do Ano por favor.

Ah, foi a maior surpresa desse ano, pra mim. Ter sido indicada, sem fazer nenhum lobby ou jabá, me deixou enormemente satisfeita e feliz, porque foi mesmo a coração de fazer o que tem que ser feito e com muita paixão. A maior honra estar entre os candidatos, já me senti vencedora só por isso. E quem ganhou o título foi o Emicida. Quem pode com um cara desses, né? Vou sonhar com a notícia da indicação pra sempre. E vou me renovar, pra fazer jus a essa e a futuras indicações (por que não. né?)

7)Você vê muita diferença entre o Rock produzido no Brasil em paralelo ao que é feito lá fora?

A nossa sonoridade é única, mas se o brasileiro quiser imita a sonoridade de qualquer um. Musicalmente falando, em matéria de talento para composições e execução, no Rock não deve nada a ninguém. Nada. Mas o Brasil valoriza muito pouco sua cultura. E, recentemente, estamos vendo esse projeto de desmonte da cultura ir de vento em popa. Eu assisto desesperada os jovens não saberem datas comemorativas básicas e se deixarem levar tão docemente por essa corrente da informação rasa, do conhecimento inútil, do transitório e descartável como natural. As aulas de histórias substituídas pelo Google, o solapamento tenebroso de educação e cultura. Mas a pergunta era sobre o Rock, né? O nosso é MUITO FODA. Pergunte a quem ouve.

8)Na sua concepção no atual cenário da ascensão de ideias e comportamentos conservadores e extremistas, Rock e politica combinam e coexistem entre si?

Mau e bem coexistem desde o começo das civilizações, então sim. Cabe aos inconformados mudarem o mundo. Pela arte, pela palavra, pela luta diária. Rock com política, hip hop com política, rap com política. Política é escolha. Eu escolho lutar por aquilo que eu acredito. Quem tem o dom das palavras que cante elas bem alto pra toda gente ouvir. E que sejam aquelas palavras que fazem a gente querer cantar junto. Pra apontar o dedo o mundo tá cheio. O que precisamos é de quem proponha alternativas e solução. E isso cabe num poema, num quadro, num balé, numa peça de teatro, num espetáculo de circo e, é claro, na música. Porque a musica é a verdadeira linguagem universal.

9)Disserte sobre projetos como a (ACR) Associação Cultural do Rock e Quem Sabe Faz Autoral:

Ambos foram criados para agregar bandas e organizadores de eventos com a mídia especializada e os fãs. São coletivos voltados para divulgação e extroversão da produção do Rock brasileiro, sendo a ACR – Associação Cultural do Rock, ainda mais engajada nas questões de concatenar todo e entorno daquilo que chamamos de Rock’n’roll: bandas, organizadores, comércio de produtos ligados ao Rock, como instrumentos, moda, discos, decoração, merchandising, além de tatuadores, produtores, público, enfim, Rock como way of life.


Para conhecer mais, sugiro acompanhar as redes sociais da ACR e do Quem Sabe Faz Autoral.

10)Defensora das causas identitárias feministas, em meio ao machismo que ainda impera na sociedade e, no próprio Rock And Roll, como você observa o papel da Mulher nesse contexto?

Mulher no palco e no camarim sempre foram aceitas e cultuadas. O gap é mulher na produção, na técnica, na negociação, na direção. Tem que ter muita paciência e inteligência emocional para vencer os obstáculos impostos pelo machismo estrutural e ser muito competente. Mulher não pode errar no trabalho, não pode ficar puta da vida, porque isso logo é taxado de “coisa de mulher”. Tem que estar preparada para piadas idiotas e cantadas (boas ou baratas), sendo que cantada é muito diferente de assédio sexual. Pra ser assédio a pessoa tem que ter “poder de decisão ou ação” sobre você. A gente ainda hoje vê garotas lindas e gostosas se desculpando por ser lindas e gostosas quando se mostram inteligentes ou apresentam coisas que criaram, escreveram, executaram, propuseram e que são incríveis, geniais, como se isso as fizesse menos merecedoras de elogios ou prêmios. Até quando? É papel de todos os que são contrários a esse comportamento tomarem medidas que visem extingui-lo. Lá em casa meu marido ajuda nos deveres domésticos. O filho dele de 12 anos lava a louça. Meu pai cuida da cozinha aos 88 anos. Seja você a mudança que você quer no mundo. Mahatma Gandhi.

Finalizando, deixe uma mensagem para o público do Zine Bicho Raro.

Agradeço a oportunidade da entrevista, mando um beijo bem gostoso pro Poeta do Rock Johann Peer, que mandou super bem nas perguntas, e convido a todos a conferirem o Tributo aos 54 Anos da Made in Brazil, que vai ser transmitido nos dias 25 e 26 de setembro, pelo canal do YouTube da Radio Stay Rock Brazil. 

Inscrevam-se pelo link https://www.youtube.com/channel/UC2A3HKgMFpeQ2xgbRxjfq7g


Para os leitores e colaboradores do Zine Bicho Raro, todo meu respeito e gratidão por construírem uma vida menos ordinária. E let’s Rock nessa porra.

Muitíssimo obrigado


Johann Peer é Jornalista responsável pelo número 65.158 MTB/SP e também vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.




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