1) Onde, quando e porque do nome Macaco Fantasma?
O nome Macaco Fantasma vem de um filme que assistimos há uns 10 anos no cinema, chamado Tio Boonmee. É um filme tailandês. Muito bom, aliás, recomendo. É um filme bem sinestésico, não tem a intenção de conduzir o espectador a uma conclusão lógica específica. E no meio do filme, aparece esse personagem misterioso, o macaco fantasma. Que é um misto de entidade espiritual, animal e humano. Acho que de alguma maneira nos identificamos com esse personagem e resolvemos adotar esse nome.
2) Disserte sobre a formação da banda e a importância de cada um no grupo:
Bom, o grupo é quase um coletivo, pois não tem membros fixos. E sim, muitos artistas e amigos que, conforme a disponibilidade de cada um e a necessidade de cada apresentação, atuam nos shows. Mas esses amigos são sempre os mesmos 10, 11. Já fizemos apresentações em duo (ainda mais, durante a pandemia). Já fizemos apresentações com 8 integrantes. Normalmente nos apresentamos em quarteto ou quinteto. De qualquer forma, essas pessoas são muito mais do que músicos contratados. São amigos, parceiros, camaradas, artistas criadores. E todos contribuem de maneira criativa sobre os arranjos, concepções, sonoridades, ou seja, todos têm uma atuação ativa, criativa e fundamental sobre cada apresentação. Atualmente fizemos várias apresentações com o mesmo quarteto: Bruno Rocha (baixo/backing vocals), Chris Cruz (performance/vocais), Douglas Froemming (guitarra e efeitos) e eu, Flávio Hernandes (violão/vocais e samples). Mas não posso deixar de falar de outros parceiros desse coletivo: Daniel Oliveira (bateria), Fernando Hernandes (contrabaixo), Vitor Hernandes (guitarra), Dharma Samu (sax barítono) e Anderson Ziemmer (clarinete/guitarra/baixo/backing vocals). Entre outros amigos músicos e parceiros.
3) Como é unir três vertentes em uma só:Punk,Poesia e Performance?Sem perder a criatividade e originalidade?Há algum segredo nisso?
Transfluências Modernistas qual o real significado?E qual mensagem quer passar para o público dentro desse contexto nas suas obras autorais?
Antes de pensar em punk, poesia e performance, existe a música, a poesia e a performance, que na verdade já se misturam há milhares de anos em culturas diferentes. Então não estamos inventando nada, só fazendo uma coisa que existe há muito tempo, só que do nosso jeito. O punk entra nessa história porque é um gênero musical que me identifico muito, desde moleque. Então, naturalmente ele entra nessa fórmula. Além disso, essas três linguagens já são "contaminadas" uma pela outra. Existe performance no punk, basta lembrar desse cara genial, o Jello Biafra (ex Dead Kennedys) e ver suas apresentações ao vivo. Aquilo era performance pura, até mímica ele usava em algumas músicas. Assim como existe poesia no punk. Henry Rollins, que foi um dos vocalistas da banda punk Black Flag, você consegue encontrar no YouTube, ele recitando Henry Miller na abertura de seus shows. Isso em 1985,86. Aqui no Brasil, o genial Paulo Barnabé da banda Patife Band (que tivemos a imensa honra de abrir seu show), já musicava Poema em Linha Reta do Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), em 1986/87.
A poesia também pode ser punk. Acabei de falar de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, e seus poemas, mesmo tendo sido escritos há quase um século e, claro, muito antes de alguém sonhar que existiria punk rock no mundo, já tinha uma postura que podemos identificar como similar ao punk. Que é de não conformismo, inquietação, questionamento e revolta. Pode se dizer que possue até certa violência e agressividade (claro, dentro do âmbito da linguagem artística). E finalmente, o punk está também na performance. Do que se trata a arte de uma mestre como Denise Stoklos? Se não que, através da performance, ela coloca questões de ordem política e filosófica de uma maneira absolutamente autêntica, que lembra muito a filosofia anarquista que uma parte do movimento punk (a parte que mais me identifico) carrega.
O termo Transfluências Modernistas não foi criado por nós, mas pela produção do evento. Mas posso dizer pela etimologia da expressão, que quer dizer que os modernismos são uma influência atual para os movimentos contemporâneos e dialogam de alguma maneira com as questões atuais. A proposta do trabalho (uma série de 10 episódios sobre personagens ligados ao Modernismo no Brasil, exibidas pelo Facebook do grupo, em nome de diversas bibliotecas municipais de São Paulo) era homenagear essas pessoas, utilizando a linguagem do grupo (poesia+música+performance). Ao longo da criação e concepção dos episódios, tentamos deixar em cada um, o espírito, a marca, o essencial de cada uma dessas pessoas. O que não foi fácil, primeiro por causa do pouquíssimo tempo que tivemos. Segundo, porque cada personagem tem um histórico de vida e de obras bem diferente. O que inclusive é uma característica do Modernismo. E de certa forma, é uma das grandes contribuições dele. Dar a possibilidade de cada artista desenvolver sua linguagem de maneira pessoal e autônoma. De maneira bem simplificada, é isso. Importante dizer que o modernismo é uma influência direta e indireta ao nosso trabalho. Direta, por essa importância que o Modernismo tem sobre tudo que é feito hoje. Essas pessoas criaram, abriram espaço e caminhos que hoje em dia nós trilhamos e muitas vezes nem sabemos quem são essas pessoas. E indireta, através de grupos e movimentos influenciados de alguma maneira, pelo modernismo e que são grandes referências pra nós, como o tropicalismo, a Vanguarda Paulistana, o punk paulistano, entre outros. Legal também falar que esses artistas modernistas viveram uma época entre guerras, o nascimento do nazismo e outros movimentos fascistas. Suportaram e resistiram à opressão e à censura de ditadores. Então eles têm muito a nos ensinar, até porque vivemos um momento histórico que carrega semelhanças com aquela época.
4) “Itamar Assumpção, após os 70”.Nos conte o porquê e como foi produzir e performar o show homenagem a este icônico Artista, na Sala Funarte em 2019.
Homenagear Itamar foi e sempre será uma honra e prazer enormes. O cara é uma grande referência pra gente. Uma das causas do grupo existir é inventar uma conversa com algumas pessoas e suas obras, que admiramos muito e somos apaixonados. Itamar com certeza é um deles. Talvez seja nossa maior referência, principalmente por causa da relação que ele tinha com a própria obra, que era de absoluta integridade. Você escuta uma música do Itamar e não tem a menor dúvida de que é ele. O cara foi genial, construiu uma música absolutamente inconfundível pois criou uma linguagem musical que misturava música brasileira, reggae, blues, jazz e até rock. E fez isso com letras maravilhosamente escritas, que falavam desde questões existenciais como a morte, até letras políticas e românticas. Sem nunca abrir mão de sua autenticidade e do bom humor também. Isso que, diga se de passagem, não é lá muito comum. Sem falar na riqueza de arranjos, qualidade dos músicos que o acompanhavam. Não teve medo de não se encaixar em nenhum estilo definido. Salve Itamar Assumpção! Ficamos muito felizes pela homenagem ter acontecido na Sala Guiomar Novaes da Funarte. Mesma sala que ele gravou um dos melhores discos ao vivo que já escutei na minha vida: Às Próprias Custas S.A.. Foi inesquecível. Tomara que haja outras!
5)Quais as influências e referências que moldaram e nortearam a identidade sonora e poética da Macaco Fantasma?
Bom, já entregamos na resposta anterior a importância do Itamar Assumpção pra nós. Mas tem também outras pessoas, como Os Mulheres Negras, Pixies, Milton Nascimento e o Clube da Esquina, Ministry, Mutantes, Patife Band, música eletrônica. Além de bandas e músicos, tem também poetas e outras autoras que nos influenciam, José Paulo Paes, Hilda Hilst, Fernando Pessoa, Albert Camus, Jorge Luis Borges, Denise Stoklos. Até o cinema de Andrei Tarkovski é uma referência pra gente.
6) Como vocês observam o fazer Cultural e Artístico, na cena Rocker no Brasil e no mundo atualmente?
Sabemos que fazer arte nunca foi algo fácil. Acredito que a internet e a tecnologia em geral só trazem mais possibilidades de você criar seu som, produzir e distribuir. Então, por esse lado, vivemos uma época ótima. Mas por outro, estamos atravessando um momento histórico em que somos governados por um setor da sociedade vinculado à milícia, que propaga fake news, possue um desejo muito grande de controlar e censurar os discursos e as vozes dissonantes que existem na sociedade, entre outros problemas. Estão vinculados a ideias reacionárias, fundamentalistas religiosos, etc. Ou seja, um momento peculiarmente difícil. Além disso, passamos por um aumento da miséria e da desigualdade social. E mais ainda, atravessamos agora uma pandemia. Não tem como não ser um momento muito difícil pra todo mundo. Não só para quem trabalha com arte. O que ajuda é uma política cultural que foi conquistada nos últimos 15, 20 anos e que, não fosse por ela, estaríamos completamente estagnados culturalmente. Essas políticas de incentivos culturais são sempre necessárias, tanto que mobilizam a arte em todo mundo, inclusive em países mais desenvolvidos economicamente. Ela deve ser uma constante, independentemente do período ou do partido que esteja ocupando o governo. Mas, nesses momentos de crise sanitária, social e econômica, elas são mais urgentes ainda. Sabemos que os partidos de esquerda são muito mais atenciosos em relação às questões culturais. E a cena rocker, se mantém ativa não sei como. Não tenho dúvida de que o senso colaborativo entre as bandas e os músicos, é algo fundamental para mantermo-nos vivos. Mas essa era já uma regra que havia antes. Quem não se dá as mãos e não se entrega de coração, dificilmente dura muito tempo. Essa talvez seja uma característica da alma do rock, a paixão e a coragem pra fazer as coisas rolarem. Quem faz rock desde sempre, sabe que isso é fundamental.
7) No tocante a políticas públicas na Arte, na Cultura, na Educação, como vocês enxergam este processo?
Como dito anteriormente, as políticas públicas não são um luxo ou pelo menos não eram pra ser. Num mundo que produz tanta riqueza e não sabe distribuí-las de maneira justa, o estado tem uma obrigação moral de atuar para minimizar e abolir as injustiças. Sabemos o quanto é difícil atuar nas vias políticas nesse país que tem estruturas arcaicas praticamente medievais incrustadas no poder público. Mas não existe muita opção. Se você não pertence a algum nicho muito específico ou a algum setor da indústria cultural já estabelecido, a chance de atuar e trabalhar com arte fica muito difícil, quase impossível. As políticas públicas de incentivo ao setor artístico são, portanto, as únicas opções. Elas possibilitam que a arte não se resuma só ao que está dando mais retorno financeiro. Lembremos a história de um Van Gogh que vendeu apenas um quadro na vida. Comercialmente, nunca valeria a pena ter existido um artista como ele. Se dependêssemos da arte ser comercial para necessariamente ter valor, provavelmente não teríamos as melhores obras primas que a humanidade já criou. E isso acontece nas artes plásticas, no cinema, na música, na dança, etc. A arte por si só, já é um ato de resistência. Como diria Camus: Toda criação nega em si mesma o mundo do senhor e do escravo.
8) Além do Punk, da Performance e da Poesia, quais os projetos da Macaco Fantasma, quer levar ao grande público, as minorias, mais precisamente, as periferias?
Seria muito bom poder levar ao público alguns desses trabalhos que criamos para homenagear os/as modernistas. Conseguimos atingir uma maturidade em relação ao hibridismo que caracteriza o trabalho do Macaco Fantasma, que antes não tínhamos. Então, continuar desenvolvendo esses repertórios seria uma ótima ideia. Além disso, temos ideias para peça de teatro físico e outras cenas em que as performances da artista Chris Cruz alcançam maior importância e destaque. Dependendo de onde elas fossem apresentadas, poderíamos acrescentar projeções de imagens também pensadas para dialogar com as demais linguagens. São muitas ideias, mas tem que ter paciência e saber o momento certo de realizá-las. Acho importante ressaltar que uma das ideias que motivaram a existência do grupo Macaco Fantasma, foi a de levar sua proposta para a rua, para praças, parques, ocupações, teatros comunitários, justamente porque é lá que faz sentido fazer uma performance que fala das questões que falamos. Não temos nada contra nos apresentar em outros lugares. Já fizemos mais de um show em boteco, por exemplo. E faríamos mais, sem problema. Mas faz mais sentido levar poesia para a rua, pra luz do dia. Onde tem gente de todas idades e com repertório cultural diverso, e em lugares que clamam pela arte, além de outras coisas tão fundamentais quanto ela.
9) Deixe uma mensagem ao público, fãs e leitores do blog PANORAMA CULTURAL, banda Macaco Fantasma e, agradecemos por nos oportunizar com esta matéria o que nos muito honra e dignifica.
Antes de mais nada, gostaria de, em nome de todes integrantes do grupo Macaco Fantasma, agradecer pelo convite e oportunidade de bater esse papo sobre coisas tão importantes pra todos nós. O blog é uma formidável ferramenta de questionamento de ideias, por parte de quem escreve e também de quem o lê. É também a possibilidade de abrir a porta para bandas e artistas em geral e colocá-los em contato direto com o público. Gostaria também de dizer que existem artistas maravilhosos na música, no grafite, poesia, literatura, artes circenses, etc, que estão aí ao nosso lado, nossos vizinhos, sobrinhos, o cara que entrega uma pizza, o cobrador de ônibus. E todos merecem ser valorizados, pois todos têm muito a dizer. A arte é fundamental, sem ela padeceríamos ante a realidade. Ela é transformadora, reveladora, vivemos e criamos arte, até mesmo sem saber. Então é isso, esse zine tem uma função essencial que é a de manter viva a arte no mundo. Que ele chegue ao maior número possível de pessoas pra levar ideias, questionamentos e que ajude a torná-las independentes e questionadoras. É disso que o mundo precisa. Como disse Jello Biafra: "Punk ain't no religious cult
Punk means thinking for yourself" - Punk não é um culto religioso, punk é você ter seu próprio pensamento!
Johann Peer é Jornalista responsável pelo número 65.158 MTB/SP e também vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.

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