W. Tede Silva lança campanha para que o poeta baiano deixe de ser apresentado como"poeta dos escravos" e seja aclamado como "poeta da liberdade".
"Castro Alves é o poeta da liberdade, do povo e do mundo, sempre atual pois seu canto contra a opressão poderia ser ouvido hoje em todo o lugar onde exista um ato, um protesto, uma manifestação". A declaração é do multi-artista franco-brasileiro W. Tede Silva, que lança a partir de Paris (onde fundou há 15 anos o Institut International Culturel Castro Alves) um movimento para que o autor baiano deixe de ser
chamado de forma reducionista como "poeta dos escravos" e seja sempre aclamado como o "poeta da liberdade".Quando se completa 150 anos da morte do poeta, que partiu desta vida aos 24 apenas, W.Tede Silva lembra que no mundo muitos aprendem o português por admirar Fernando Pessoa, inclusive existindo pacotes turísticos para visitas aos caminhos e lugares em que esse poeta viveu em Portugal.
"Precisamos incentivar o mesmo em relação a Castro Alves. O Brasil tem muitos bons poetas,mas aquele que se revelou mais humano, por sentir, sofrer e cantar a vida dos mais humildes, dos oprimidos e escravizados, esse foi o poeta baiano, cuja poesia será sempre atual em um mundo desigual ou como memória de tristes relações que não devemos repetir. Sem contar que existem inúmeras formas de escravidão,como a do consumismo, das drogas, da rotina,do fanatismo". Filho de de família humilde, como a maioria dos brasileiros, (pois temos mania de pensar que o rico é o mais próximo, ele lembra).
Tede Silva tem muito orgulho de suas raízes e origens. "Somos privilegiados, por parecermos brancos, em uma terra que discrimina as pessoas pela cor da pele, quando na verdade todos somos de origens africanas", ressalta ele.
"De acordo com o multi-artista, todos em menor ou maior grau temos raízes na África, de onde aqueles que seriam seus grandes personagens e personalidades foram sequestrados e trazidos para o Brasil. O franco-brasileiro ressalta que sempre se interessou pelo poeta mas foi em São Paulo, onde viveu e teve grandes encontros, que achou também em um sebo um livro sobre a passagem de Castro Alves pela cidade, onde o poeta se inspirou para escrever seu épico Navio Negreiro e onde ele sofreu o acidente que o obrigou a amputar uma perna e o levou à morte, meses depois, em Salvador. Entre as diversas particularidades que fazem do baiano o poeta síntese da nacionalidade e do universalismo, Tede Silva lembra que ele viveu o Brasil plenamente, de Salvador ao Recife, do Rio de Janeiro a São Paulo, além de beber na fonte de influências como o francês Victor Hugo, autor de "Os miseráveis", grande épico que trouxe ao universo da literatura os mais humildes, perseguidos e marginalizados. Castro Alves foi republicano no último país monarquista das Américas, foi abolicionista em uma terra deescravos, foi laico em um tempo de poder religioso, foi feminista em uma sociedade patriarcal. E seria no século XX, se vivesse, um bandleader, um artista como Raul Seixas, Cazuzaou Renato Russo, pois em seu tempo foi performático, declamava suas poesias, tinha estilo e paixão pelo que fazia e vivia", completa.W. Tede Silva promove diversos eventos na Europa em torno da obra de Castro Alves, dando continuidade a uma "parceria" que começou no Brasil, onde lançou o CD independente mais vendido, em 2001, com o poeta na capa, ao lado de outros grandes humanistas. "Quando voce vive em outra terra diferente, voce participa de um duelo de inteligências, em que voce representa toda uma civilização. E criamos o Institut Castro Alves por considerar muito reducionista resumir o Brasil a um único esporte e seus jogadores bilionários ou à sexualização". A ONG tem diversos projetos para divulgar os aspectos positivos do Brasil e W. Tede Silva parabeniza a revista da Quebrada por "como o poeta baiano e universal, ser uma voz da maioria sacrificada, silenciosa mas esperançosa, fundamental para que tenhamos um sentido na vida e um planeta melhor para as novas gerações.Tede Silva finaliza esta declamando:
“Viva o Poeta da Liberdade e parabéns a Revista da Quebrada!". Também cineasta,Tede Silva realizou "Tudo São Referências,Tudo São Memórias"(2007), em homenagem à Paulicéia, “Matrículas Abertas, Vagas Limitadas"(2011), um filme sobre a defesa da diversidade, com a participação de atores de diversas nacionalidades, e recentemente "Piratage 2.0", sobre a precariedade de trabalho nas plataformas digitais.
*Matéria publicada na edição de n°12 da Revista da Quebrada de Guarulhos-SP em Setembro de 2021.
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