Panorama Cultural Johann Peer

domingo, 28 de junho de 2026

O protagonismo das mulheres no rock brasileiro: da pioneira Nora Ney à força da nova geração do underground

A FORÇA E O EMPODERAMENTO FEMININO NO ROCK BRASILEIRO 


Por Johann Peer | Panorama Cultural





Durante décadas, o rock brasileiro foi associado a um universo predominantemente masculino. No entanto, a história mostra que as mulheres sempre estiveram presentes na construção desse movimento, seja nos palcos, nos estúdios, na produção cultural ou na comunicação especializada. Com talento, criatividade e perseverança, elas ajudaram a transformar o cenário musical nacional e seguem renovando a cena independente em diferentes estilos do rock e do metal.


 As pioneiras abriram caminho

Curiosamente, o primeiro rock gravado no Brasil teve uma voz feminina. Em 1955, Nora Ney registrou Ronda das Horas, versão brasileira de Rock Around the Clock, marco simbólico da chegada do gênero ao país.

Poucos anos depois, Celly Campello conquistou o público jovem e tornou-se a primeira grande estrela do rock nacional com sucessos como Banho de Lua e Estúpido Cupido, consolidando o espaço feminino em um mercado ainda em formação.


 Rita Lee: a revolução definitiva

A transformação mais profunda veio na segunda metade da década de 1960 com Rita Lee. Integrante dos Mutantes e, posteriormente, líder da banda Tutti Frutti e de uma consagrada carreira solo, ela redefiniu o papel da mulher no rock brasileiro.

Com irreverência, criatividade e independência artística, Rita Lee rompeu padrões estéticos e comportamentais, tornando-se um dos maiores símbolos da música brasileira. Seu legado permanece como referência para diversas gerações de artistas.

 Os anos 1980 ampliaram o protagonismo

O fortalecimento do rock nacional nos anos 1980 trouxe novas representantes femininas para diferentes vertentes musicais.

Baby do Brasil incorporou elementos do pop e do rock após sua trajetória nos Novos Baianos.

Marina Lima consolidou-se como cantora, compositora e instrumentista, responsável por diversos sucessos radiofônicos.

Fernanda Abreu, inicialmente integrante da Blitz, desenvolveu posteriormente uma carreira que aproximou rock, funk e música pop.

Enquanto isso, o underground paulista ganhava força com bandas como Mercenárias, liderada por Sandra Coutinho, mostrando que o punk e o rock alternativo também eram espaços de criação e protagonismo feminino.


Diversidade do rock feminino dos anos 1990 aos dias atuais

Nos anos 1990, o cenário recebeu uma das maiores intérpretes da música brasileira: Cássia Eller, cuja personalidade artística e interpretações marcantes conquistaram público e crítica.

Na década seguinte, Pitty tornou-se um dos principais nomes do rock nacional contemporâneo, levando o gênero novamente ao topo das paradas e inspirando uma nova geração de compositoras e instrumentistas.

Hoje, o protagonismo feminino vai muito além dos vocais. Mulheres atuam como guitarristas, baixistas, bateristas, produtoras, técnicas de som, empresárias e comunicadoras, fortalecendo toda a cadeia produtiva da música independente.


A força do underground brasileiro

A cena independente brasileira apresenta uma geração de artistas que amplia a diversidade de estilos e narrativas presentes no rock nacional.

Entre os destaques está a banda brasileira de death metal Crypta iniciou uma nova etapa de sua trajetória e já se prepara para entrar em estúdio para gravar seu terceiro álbum de inéditas. O novo trabalho sucede Shades of Sorrow, disco que ampliou a projeção internacional do grupo e consolidou sua presença no cenário do metal extremo.


Em 2026, a Crypta oficializou a entrada da guitarrista norte-americana Victoria Villarreal. A formação atual reúne as fundadoras Fernanda Lira (vocal e baixo) e Luana Dametto (bateria), além da guitarrista Tainá Bergamaschi. A nova composição fez sua estreia no Brasil durante o festival Bangers Open Air, realizado em São Paulo.


Nos últimos anos, a banda tem ampliado sua atuação no mercado internacional. Com Shades of Sorrow, a Crypta conquistou espaço em paradas da Billboard e intensificou sua agenda de apresentações em festivais e turnês pela Europa e pelos Estados Unidos.

De Jundiaí (SP) destaca-se o Cáustico, duo experimental, onde Cely Couto assume simultaneamente bateria e vocais, característica pouco comum mesmo no cenário internacional. A banda mistura punk, noise rock e drone, construindo uma identidade sonora própria.

No metal extremo, o Ethel Hunter, de Curitiba, tem Larissa Pires nos vocais e apresenta uma combinação de técnica e intensidade no death metal.

No Distrito Federal, a Kidsgrace, formada por mulheres cis e trans, utiliza o hardcore para abordar questões sociais, saúde mental e identidade, ampliando a representatividade dentro da cena.

Outra representante é a carioca Mityma, grupo formado exclusivamente por mulheres que aposta no blackened sludge metal com sonoridade pesada e letras densas.

O Hatefulmurder, do Rio de Janeiro, consolidou-se no death metal melódico tendo Angélica Burns como uma das vozes mais reconhecidas do gênero.

Em Curitiba, a Humanal, liderada por Tati Klingel, mistura groove metal, jazz, rock progressivo e música brasileira, reforçando a pluralidade criativa do metal nacional.

Já o Manger Cadavre? tornou-se referência no crust punk brasileiro. Além dos vocais, Nata de Lima desenvolve um importante trabalho de articulação cultural por meio da União das Mulheres do Underground e do podcast Blasfêmea.

Também merecem destaque bandas como CRAS, INRAZA, Corja!, Charlotte Matou Um Cara, Malvada, Drenna Rock e a artista Patrícia Shaki, cada uma contribuindo para ampliar a presença feminina em diferentes vertentes do rock brasileiro.

 


Mulheres que movimentam os bastidores da cena Rock




O fortalecimento do rock brasileiro não depende apenas dos artistas que sobem aos palcos. Nos bastidores, diversas profissionais desempenham papel decisivo para o crescimento da cena independente.

Entre elas está a produrocker Gigi Jardim, produtora artística e idealizadora do Dellaz Fest, festival voltado ao protagonismo feminino e ao fortalecimento do rock independente.

Outra referência é Kaká Schwartzmann, jornalista, musicista e apresentadora do projeto Tour Rock Brasil. Percorrendo diferentes estados brasileiros, ela registra, divulga e conecta bandas autorais, contribuindo para ampliar a visibilidade da produção independente nacional rumo ao Guiness Book com a descoberta e entrevista de mais de mil bandas e artistas do Rock autoral independente brasileiro de várias cidades e estados do país percorrendo todo o território nacional.

Também merece reconhecimento Nanda Rev Divulguer, produtora cultural, assessora de imprensa e organizadora de festivais itinerantes que fortalecem artistas autorais em diversas regiões do país, consolidando uma importante rede de divulgação do rock underground.


Muito além da música

A presença feminina no rock brasileiro representa mais do que participação artística. Ao longo de sete décadas, mulheres ocuparam espaços antes restritos, ampliaram possibilidades criativas e contribuíram para a diversidade cultural do país.

Hoje, novas gerações demonstram que o rock continua sendo um ambiente de inovação, pluralidade e expressão artística. Em estilos que vão do punk ao metal extremo, passando pelo rock alternativo e experimental, elas seguem escrevendo capítulos importantes da história da música brasileira.

Valorizar essas artistas, produtoras, jornalistas e comunicadoras significa reconhecer a importância de um movimento cultural construído diariamente por pessoas que mantêm viva a cena independente e ampliam as possibilidades do rock nacional para o futuro.


Johann Peer é Jornalista responsável sob o número 65.158/SP e também vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.


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