Fundador do Inocentes, integrante da Plebe Rude e presidente da ABMIN, Clemente Nascimento fala sobre a história do punk nacional, os desafios da cena independente e os rumos da música brasileira.
Por Johann Peer | Panorama Cultural
Uma das vozes mais importantes da história do rock brasileiro, o músico e ativista cultural Clemente Nascimento concedeu entrevista exclusiva ao Blog Panorama Cultural por Johann Peer. Fundador da histórica banda Inocentes, integrante da Plebe Rude e atual presidente da ABMIN, o artista revisitou momentos decisivos da trajetória do punk brasileiro e refletiu sobre os desafios enfrentados pelos músicos independentes na atualidade.
Segundo Clemente, sua relação com a música começou em 1976, incentivado pelo amigo Douglas Viscaíno. Pouco tempo depois, a explosão mundial do punk rock encontrou terreno fértil entre jovens paulistanos influenciados por bandas como Stooges e MC5.
“Em 1977 o punk explodiu no mundo todo e foi uma coisa muito natural nos tornarmos uma das primeiras bandas punk brasileiras em 1978 com o Restos de Nada”, relembra.
Ao analisar o impacto do movimento punk em São Paulo durante os anos 1980, Clemente afirma que o fenômeno representou uma mudança histórica na produção cultural brasileira.
“Foi uma das poucas vezes na história em que a vanguarda estava na periferia e não na classe média.”
A entrevista também percorre a formação de grupos fundamentais para a consolidação da cena underground. Antes dos Inocentes, Clemente integrou as bandas Restos de Nada e Condutores de Cadáver, que ajudaram a organizar festivais e ampliar a circulação da música punk pelas periferias paulistanas.
O músico destaca ainda a importância da coletânea "Grito Suburbano", lançada em 1982, considerada um marco para o gênero ao reunir Cólera, Inocentes e Olho Seco no primeiro registro fonográfico dedicado às bandas punks brasileiras.
Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, Clemente acompanhou de perto as transformações da indústria musical. Para ele, as pautas sociais presentes nas composições evoluíram naturalmente com o passar do tempo.
“Na década de 80 era mais cru e direto. Hoje é mais poético, sem perder a contundência.”
Questionado sobre a relação entre o underground e o mainstream, o artista lembra que muitos dos principais nomes do rock nacional surgiram justamente dos circuitos alternativos.
“Todas as bandas da década de 80 que ficaram populares depois vinham do underground. Conheci todas tocando pelos porões da cidade.”
A entrada na Plebe Rude, anos depois, foi consequência de uma amizade construída desde os primeiros anos da cena punk.
“Quando o Philippe me convidou, fiquei honrado. Sempre gostei da banda e me adaptei rapidamente.”
Durante a conversa, Clemente também analisou a perda de protagonismo
do rock no mercado fonográfico. Segundo ele, as mudanças na forma de consumo da música transformaram profundamente a indústria.
“Hoje praticamente existe uma grande plataforma dominante e ela investe apenas no que oferece retorno garantido.”
Mesmo assim, o músico não acredita que o rock tenha desaparecido.
“O rock voltou para o seu público original, para quem realmente vive essa cultura. Para bandas como Inocentes e Plebe Rude isso funciona muito bem.”
Sobre o crescimento de estilos como rap, hip hop e trap, Clemente vê o processo com naturalidade e destaca que o diálogo entre diferentes linguagens musicais sempre existiu.
Entre suas experiências fora dos palcos, ele ressalta o trabalho realizado como comunicador, produtor e apresentador em rádio, televisão e plataformas digitais, ajudando a divulgar artistas independentes e novos talentos.
Na presidência da ABMIN, Clemente defende a aproximação dos músicos independentes com políticas públicas voltadas ao setor cultural.
“A ideia é facilitar o acesso dos artistas às políticas públicas, à gestão cultural e à elaboração de projetos.”
Ao comentar os desafios atuais dos músicos independentes, ele observa que os artistas passaram a acumular diversas funções que antes eram desempenhadas por gravadoras e selos.
“Hoje o artista precisa criar, divulgar, distribuir e administrar a própria carreira.”
Apesar das dificuldades, Clemente segue otimista em relação à produção musical independente e mantém uma intensa agenda de atividades. Entre os projetos mais recentes estão as comemorações dos 40 anos dos álbuns históricos das bandas Inocentes e Plebe Rude, além da gravação de um novo registro ao vivo dos Inocentes.
Ao encerrar a entrevista, o pioneiro do punk brasileiro resumiu sua trajetória com uma frase marcante:
“Fiquei vivo para contar a história.”
E deixou uma mensagem direta para os novos artistas que desejam iniciar sua caminhada na música independente:
“Faça o que está a fim de fazer sem seguir modismos.”
A declaração sintetiza a essência de uma carreira construída com autenticidade, independência e compromisso com a cultura alternativa brasileira, características que transformaram Clemente Nascimento em uma das figuras mais influentes da história do rock nacional.
*Johann Peer é Jornalista responsável sob o número 65.158/SP e também, vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.
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