Panorama Cultural Johann Peer

domingo, 15 de março de 2026

M.I.R.: quando palavra, movimento e música se encontram em cena








Entre ritmo intuitivo, poesia e experimentação sonora, o artista M.I.R. construiu uma trajetória que atravessa música, teatro e audiovisual. Da infância marcada por instrumentos improvisados até a criação de espetáculos que misturam narrativa, performance e canção, sua obra revela um artista interessado em transformar experiência em linguagem. Em entrevista ao Panorama Cultural, ele reflete sobre suas origens musicais, processos criativos e os caminhos que sua pesquisa artística vem trilhando — agora também nas turnês “Palavra e Movimento” e “Palavra, Movimento e Pulsação”.

A relação de M.I.R. com a música nasceu antes mesmo da compreensão formal do que ela era. Na infância, objetos domésticos já se transformavam em instrumentos e o cotidiano era percebido como paisagem sonora.


“Hare krishna! Desde muito cedo eu percebia o mundo de forma sonora”, conta. “Antes mesmo de entender a música como linguagem, eu já buscava ritmo nas coisas mais simples do cotidiano: mesas, xícaras, panelas… qualquer objeto podia virar instrumento.”

Essa experiência inicial moldou sua forma de escutar e de criar. Para ele, o ritmo sempre esteve além dos instrumentos.

“O ritmo não vinha apenas de um instrumento musical. Ele estava no ambiente, nas pessoas, no movimento da vida. Essa relação lúdica e espontânea com o som acabou moldando minha forma de criar até hoje. A música, para mim, nasce da curiosidade e da observação.”

Mesmo sem músicos profissionais na família, o ambiente doméstico foi fundamental para a formação da sua sensibilidade artística.

“Apesar de não haver músicos profissionais na família, havia muita música circulando. Canções no rádio, discos tocando, pessoas cantando naturalmente dentro de casa”, lembra.

Esse contato cotidiano fez com que a música surgisse como linguagem emocional antes de qualquer formalidade técnica.

“Ela nunca foi algo distante ou técnico demais, era parte da vida cotidiana. Isso moldou minha sensibilidade artística porque aprendi desde cedo que música é sobretudo comunicação e emoção.”

Ao longo dos anos, a trajetória de M.I.R. passou por diferentes experimentações e influências musicais.

“No início havia muita experimentação e influência de diferentes estilos — rock, folk, blues, música brasileira”, explica.

Com o tempo, o artista percebeu que sua identidade surgia justamente desse cruzamento de referências.

“Hoje eu descrevo meu trabalho como uma música de forte narrativa, onde palavra, melodia e atmosfera caminham juntas. É um território que mistura canção, reflexão e experiência sensorial.”

Um momento importante desse processo foi sua participação na banda Jasmins do Paraíso, experiência que contribuiu para seu amadurecimento musical.

“A experiência com os Jasmins do Paraíso foi muito importante para minha formação artística”, afirma. “Foi um período de aprendizado coletivo, de entender o funcionamento de uma banda, de dividir palco e criação com outras pessoas.”

A convivência musical também trouxe lições que permanecem presentes em seus projetos atuais.

“Essa vivência me ensinou muito sobre dinâmica musical, escuta entre os músicos e construção de identidade artística em grupo.”

Já em carreira solo, M.I.R. decidiu explorar uma abordagem diferente com o álbum instrumental “Sonido 23”, uma obra que aposta na experiência sensorial da música sem palavras.

“‘Sonido 23’ nasceu de uma necessidade de explorar o som de forma mais abstrata, sem a condução da palavra”, explica.

A proposta era permitir que as emoções emergissem diretamente da sonoridade.

“Eu queria investigar como a música poderia comunicar sensações, atmosferas e estados emocionais apenas através das texturas sonoras. Foi um exercício de escuta profunda.”

O processo também trouxe desafios criativos.

“O maior desafio foi abandonar a segurança da palavra. Quando não há letra, cada detalhe sonoro ganha mais peso. Mas isso abre um campo enorme de possibilidades.”

Em 2024, o artista apresentou o EP “Presentes Inigualáveis”, trabalho que marca uma nova etapa de maturidade criativa.

“Esse EP representa um ponto de maturidade na minha trajetória”, afirma. “Ele reúne elementos que já vinham aparecendo no meu trabalho — a força da canção, a dimensão poética e a busca por uma identidade sonora própria.”

As composições também refletem uma abordagem mais consciente sobre o que deseja comunicar artisticamente.

“As canções trazem reflexões sobre a vida, os encontros humanos e a percepção de que existem presentes que não são materiais, mas experiências que transformam a nossa existência.”

A atuação de M.I.R. também se estende ao audiovisual, onde suas composições participam de trilhas sonoras.

“Compor para o cinema é muito interessante porque a música passa a dialogar diretamente com a imagem e com a narrativa do filme”, explica.

Segundo ele, o processo exige outra escuta criativa.

“No audiovisual a música precisa servir à história que está sendo contada. Isso exige sensibilidade para entender o ritmo da cena, a emoção do momento e até o silêncio necessário.”

No teatro, um dos projetos mais pessoais foi o musical “A Trilogia das Gurias”, inspirado em suas três filhas — Dominique, Isadora e Valentina.

“A obra nasceu de um desejo muito pessoal de transformar experiências da minha própria vida em arte”, conta.

O espetáculo mistura memória, narrativa e música.

“O aspecto autobiográfico aparece como ponto de partida, mas a ideia é que cada pessoa também se reconheça nessas histórias.”

Em março, M.I.R. inicia a turnê nacional “Palavra e Movimento”, com estreia em Recife.

“É um espetáculo que nasce da força da canção e da presença no palco”, explica. “É um formato muito direto, onde voz, violão e narrativa conduzem a experiência.”

Segundo ele, o público pode esperar um encontro mais próximo com a música.

“A ideia é criar um espaço de encontro verdadeiro entre artista e plateia.”

Paralelamente, ele também apresenta a turnê “Palavra, Movimento e Pulsação”, em formato banda, percorrendo cidades do Rio Grande do Sul.

“O formato solo é mais intimista e focado na narrativa da canção. Já o espetáculo com banda amplia a dimensão sonora e energética das músicas”, afirma.

No centro da pesquisa artística de M.I.R. está a ideia de que a música ultrapassa o campo sonoro.

“Para mim, a música nunca foi apenas som. Ela envolve presença, gesto e intenção”, explica.

Essa visão se manifesta especialmente na performance ao vivo.

“O corpo participa do processo criativo tanto quanto a palavra e a melodia. No palco, a performance acaba sendo uma extensão da própria canção.”

Para ele, a performance é também uma dimensão essencial da música contemporânea.

“Ela transforma a música em experiência viva. Quando uma canção é apresentada ao vivo, ela ganha novas camadas de interpretação, emoção e comunicação com o público.”

Ao observar o cenário cultural atual, o artista vê na mistura de linguagens um caminho fértil para a criação.

“A arte contemporânea tem se tornado cada vez mais interdisciplinar”, afirma. “Minha pesquisa artística caminha justamente nesse sentido: explorar o encontro entre música, narrativa, imagem e performance.”

No fim das contas, porém, o que ele busca é algo simples — e profundo.

“Espero que as pessoas saiam de um espetáculo meu com a sensação de terem vivido uma experiência verdadeira”, conclui.

“Se a música conseguir provocar reflexão, emoção ou simplesmente um momento de conexão consigo mesmo e com o mundo ao redor, então o encontro já valeu a pena. Hare krishna.”


Fotógrafo:Marco Faria


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Johann Peer é Jornalista responsável sob n°65.158 MTB/SP e também vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.














domingo, 8 de março de 2026

Patrícia Shaki: a multiartista de Maringá que transforma música independente em palco de resistência cultural cantora, compositora, apresentadora e produtora cultural, artista paranaense consolida trajetória no underground nacional ao unir arte, comunicação e ativismo feminino.






A trajetória da multiartista maringaense Patrícia Shaki revela a força criativa e a diversidade de caminhos que caracterizam a cena independente brasileira. Cantora, compositora, comunicadora, produtora cultural e defensora da presença feminina na arte, Shaki construiu ao longo dos anos uma identidade artística marcada pela pluralidade sonora e pelo compromisso com a valorização da cultura underground.


Com formação musical iniciada ainda na infância e atuação que se estende por diferentes linguagens artísticas — da música ao teatro, da dança à comunicação —, a artista se tornou uma das vozes ativas na difusão da produção independente nacional. Em entrevista ao Panorama Cultural, ela reflete sobre sua trajetória, os desafios do cenário musical brasileiro e os caminhos que pretende trilhar nos próximos anos.


Do piano erudito da infância ao palco do rock

O primeiro contato de Patrícia Shaki com a música aconteceu muito cedo. Aos quatro anos de idade, iniciou os estudos em piano erudito, experiência que moldou os fundamentos de sua formação artística.


Segundo a artista, esse aprendizado inicial foi determinante para sua trajetória.


“A formação me deu embasamento teórico e prático sobre o universo da música e despertou em mim a vontade de seguir esse caminho pela vida.”


Com o passar dos anos, a artista passou por diversas bandas e estilos musicais, ampliando sua bagagem artística. Essa diversidade, segundo ela, foi essencial para desenvolver uma identidade própria no palco.


“Todas as experiências musicais que tive só agregaram para que eu evoluísse vocalmente. Mas, principalmente, me ajudaram a construir meu próprio estilo — um estilo que interage com o público, que dança e que se entrega no palco.”


O divisor de águas: o nascimento da compositora

Embora já estivesse ativa na cena musical há anos, foi em 2019 que Patrícia viveu um momento decisivo em sua carreira: a composição de sua primeira música autoral, “Borboleta”.


O single, lançado oficialmente em 2022, marcou sua consolidação dentro da cena independente nacional.


“Foi quando consegui compor minha primeira música. O lançamento acabou me projetando nacionalmente dentro do underground.”


A partir desse momento, a cantora passou a investir com mais intensidade na criação de repertório autoral, incorporando experiências pessoais às letras e explorando diferentes vertentes musicais.


Entre o palco e os microfones da comunicação

Além da carreira musical, Patrícia Shaki também se destaca como apresentadora, entrevistadora e comunicadora, conduzindo programas de rádio, podcasts e entrevistas voltadas à cena independente.


Para ela, fortalecer outros artistas é uma extensão natural de seu trabalho.


“Literalmente é a vontade de crescer junto. Eu adoro ser apresentadora tanto quanto cantora. Se posso unir a valorização da cena musical independente com essa vontade de comunicar, por que não?”


Nesse contexto, as web rádios e plataformas digitais desempenham um papel essencial.


“São veículos de extrema importância. É através deles que muitas portas se abrem para os artistas independentes.”


Para Patrícia Shaki, a música independente brasileira ainda enfrenta obstáculos significativos — especialmente fora dos grandes centros culturais.


Entre os principais desafios, ela aponta a necessidade de profissionalização da relação com a mídia, a dificuldade de financiamento para produções e a grande quantidade de lançamentos no mercado.


“Existe um volume enorme de trabalhos novos chegando ao público, nem sempre com qualidade, o que pode confundir a percepção do público.”


Outro fator recente que preocupa parte dos artistas é o avanço da inteligência artificial no campo da produção musical.


“A IA também virou um concorrente, ao meu ver.”


A atuação de Patrícia Shaki vai além da música. Profissionalmente, ela também trabalha na coordenação de políticas públicas voltadas à saúde da mulher e da criança, experiência que influencia diretamente sua produção artística.


Essa vivência fortalece um dos pilares de sua trajetória: a valorização da presença feminina na cultura.


“Busco fomentar a presença feminina no meio artístico e também a igualdade de direitos sociais através da arte.”


Para a artista, a música possui um papel transformador na sociedade.


“A arte entra nos ouvidos, na mente e no cotidiano das pessoas. Ela é formadora de opinião e pode gerar revoluções, como aconteceu com o rock brasileiro nas décadas de 1980 e 1990.”


Apesar das dificuldades históricas, Shaki reconhece avanços na presença feminina dentro do rock e da música pesada.


“Hoje vemos cada vez mais mulheres em bandas de metal e heavy metal, algo que ainda enfrentava muita resistência.”


A produção autoral de Patrícia Shaki é profundamente conectada à sua própria experiência de vida.


“Praticamente tudo que componho tem relação com o que vivo, direta ou indiretamente. Essa é minha forma de expressão.”


Recentemente, a artista lançou um novo single em parceria com o projeto Bellini Rock, consolidando mais uma etapa de sua discografia. Paralelamente, ela já trabalha na finalização de dois novos singles, que devem integrar um projeto maior.


O objetivo é reunir canções suficientes para formar um álbum completo, capaz de sustentar um repertório autoral sólido para apresentações ao vivo.


Musicalmente, o público pode esperar uma continuidade da diversidade que marca sua trajetória.


“Vou manter minha variedade musical, com melodias que passam por diferentes vertentes do rock e até mesmo pela MPB.”


Produção cultural e curadoria artística

Patrícia Shaki também atua como produtora cultural, curadora de eventos e jurada em concursos de bandas, participando da organização de festivais e premiações voltadas à música independente.


Para ela, um projeto cultural relevante precisa combinar profissionalismo, inclusão artística e impacto social.


“É algo que ofereça espaço a vários artistas, com condições dignas e visão estratégica de mercado, mas que também provoque emoções no público e estimule reflexões mais sensíveis e politizadas.”


Na avaliação de novos talentos, alguns critérios são fundamentais:


qualidade da produção audiovisual,

criatividade,coerência estética,originalidade e identidade artística


Uma artista de múltiplas linguagens além da música e da comunicação, Shaki também atua em áreas como dança, teatro e pintura, linguagens que dialogam diretamente em seu processo criativo.


“Sem dúvida todas essas linguagens conversam entre si. Mas o segredo de como isso acontece eu não conto”, brinca.


Ser uma multiartista, segundo ela, amplia horizontes criativos, mas também exige equilíbrio.


“O segredo é impor limites de um lado e deixar fluir do outro.”


Nos últimos anos, o trabalho de Patrícia Shaki passou a receber premiações nacionais e internacionais, reconhecimento que ela recebe com entusiasmo e espírito crítico.


“É muito prazeroso ouvir elogios sinceros, mas também é importante ouvir críticas. Usando um filtro para saber o que absorver, isso só aumenta meu conhecimento e me ajuda a melhorar.”


Entre os projetos futuros, a artista pretende manter sua atuação múltipla — como cantora, compositora, apresentadora e produtora cultural — além de lançar dois ou três novos singles até 2026.


Ao encerrar a entrevista, Patrícia Shaki deixa um recado direto para quem está começando na música.


“Nunca desistam dos seus sonhos. Mas entendam que a música também é um trabalho e exige profissionalismo e qualificação. Ser músico é, sem dúvida, uma profissão.”

Johann Peer é Jornalista responsável pelo n°65.158 MTB/SP e vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.







domingo, 1 de março de 2026

Claudio Magalhães: entre o romance, o rock e a resistência literária

 



Escritor, contista e historiador musical reflete sobre trajetória, mercado editorial, inteligência artificial e os desafios da leitura no Brasil

Poeta na juventude, romancista na maturidade e historiador musical por vocação, Claudio Alexandre Magalhães construiu, desde os anos 1980, uma trajetória marcada pela inquietação criativa e pelo amor ao rock and roll. Autor de obras como O Infinito em Nós (1987), O Cemitério do Bosque (2017), Contos e Lendas da Escuridão (2020) e Cidade de Prata (2024), ele transita entre o terror, o romance, o conto e a crítica cultural. Nesta entrevista ao blog PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER, o escritor fala sobre seus primeiros passos na literatura, o impacto da música em sua formação, os bastidores do mercado editorial brasileiro e sua visão contundente sobre inteligência artificial e leitura no país.

A paixão pela escrita surgiu ainda na adolescência. Claudio recorda que, na escola, sempre se destacava nas redações. O ponto de virada ocorreu por volta de 1984, quando uma professora de literatura, Maura, percebeu seus textos e o incentivou a levá-los adiante.

Ao apresentar seus poemas, foi encaminhado ao escritor Cacildo Marques, que o conduziu à Editora Scortecci. Nascia ali o embrião de sua primeira obra, O Infinito em Nós, lançada em 1987 com tiragem aproximada de 300 exemplares, patrocinada por um gerente do banco onde trabalhava.

O livro reunia poemas e crônicas escritos desde 1984, marcados por forte lirismo juvenil e temas universais como ar, água, vento, lua e sol. “Havia uma grande paixão de adolescente”, relembra.

O amor pelo rock and roll começou no fim de 1979, ao ouvir Chronicle, do Creedence Clearwater Revival. Contudo, foi em 1980, ao escutar Hotter Than Hell, do Kiss, que “o coração bateu diferente”. A partir dali, a música tornou-se parte essencial de sua identidade.

Frequentador assíduo da Galeria do Rock e da loja Eric Discos, em Pinheiros, Claudio desenvolveu um olhar crítico sobre a cena musical. Posteriormente, assinou coluna no jornal Cotia Agora, dedicando-se principalmente a críticas de shows.

Ele também levou sua bagagem cultural para programas como Artnight Cultura Noturna, no YouTube, e o quadro 10+1, no Instagram, onde compartilha histórias e curiosidades do universo musical. “Muitas vezes nem programo o que vou falar; são memórias acumuladas de anos de rock and roll”, afirma.


Após O Infinito em Nós, Claudio publicou As Diversas Fases do Tempo (1991), obra mais sentimental e introspectiva, revelando amadurecimento na escrita. Já Flores de Inverno (1994) apresentou um romance adolescente de viés espiritual, indicando nova fase criativa.

Sua participação na 13ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 1994, ainda jovem e tímido, foi marcante. “Percebi que não era o meu momento ainda”, reconhece.

Com o tempo, a poesia deu lugar ao romance. Embora ainda publique versos — como em Poesias Para Uma Noite Solitária (2023), lançado digitalmente —, Claudio se define hoje como romancista. “Passei pela fase de poesias. Hoje me dedico a romances de terror, amor ou policial.”

Em 2017, lançou O Cemitério do Bosque, romance de suspense com elementos apocalípticos. A trama acompanha quatro jovens que tentam impedir que forças demoníacas dominem uma região estratégica para a conquista da Terra. A narrativa envolve personagens complexos, como o Padre Enda, amaldiçoado por trair Cristo; Sinne Lelie, fada líder de bruxas; e Anderson, herdeiro de uma linhagem envolvida na morte de entidades malignas.

A obra abriu caminho para Contos e Lendas da Escuridão (2020), que vendeu mais de dois mil exemplares. O sucesso ocorreu mesmo durante a pandemia, quando eventos presenciais foram cancelados. Claudio investiu em divulgação direta, promoções com brindes e vendas pessoais em pontos icônicos como a Galeria do Rock e a Woodstock Discos.

Já Cidade de Prata (2024) enfrentou entraves contratuais e atrasos editoriais. O lançamento contou com incentivo da Lei Paulo Gustavo, permitindo ao autor adquirir exemplares próprios para comercialização. A obra foi apresentada em espaços culturais como o Open Mall The Square, o Café Quanti e a Biblioteca Batista Cepelos, em Cotia, onde vendeu cerca de 800 cópias.

Claudio observa que, no modelo independente, o autor arca com custos de produção, mas mantém 100% do lucro das vendas. Em editoras tradicionais, por outro lado, recebe entre 3% e 19% do valor de capa.

Para ele, o mercado brasileiro ainda enfrenta resistência cultural à leitura. “Só de você dizer que é escritor, muitas pessoas torcem o nariz. Nem mesmo pessoas próximas compram seus livros.”

Ao comparar com Estados Unidos e Europa, aponta maior tradição leitora nesses países, onde autores estrangeiros encontram melhor acolhida.

Sobre o avanço tecnológico, o escritor é categórico: considera a inteligência artificial “o maior retrocesso para a arte”. Para ele, há diferença essencial entre o dom criativo e a geração automática de textos. “Uma coisa é escrever durante um ano; outra é dar um comando e ter um livro em cinco minutos. Não tem sentimento.”

Apesar disso, reconhece o valor de ferramentas tecnológicas como corretores automáticos e editores digitais. “Jamais a tecnologia substituirá o ser humano”, sentencia.

Diante dos índices de não leitores no Brasil, Claudio manifesta preocupação. Ele cita a frase de Nelson Rodrigues — “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade” — para ilustrar o risco da superficialidade interpretativa.

Para o escritor, a solução começa na infância: “A leitura deve vir desde pequeno. Os pais precisam incentivar os filhos. Caso contrário, perderemos uma das maiores formas de cultura da humanidade.”

Embora reconheça a solidão do ofício literário — “o escritor é o sujeito mais solitário no meio artístico” —, Claudio valoriza o contato público em eventos e apresentações. Ainda assim, afirma que as páginas em branco sempre serão preenchidas, independentemente das circunstâncias.

Se precisasse definir qual faceta mais se destaca atualmente, Claudio não hesita: “O romancista.” Ele se orgulha especialmente do impacto de suas narrativas, como o comentário de uma leitora que recomendou ler Contos e Lendas da Escuridão “com uma vela e um crucifixo na mão”.

Aos jovens que desejam ingressar na literatura, aconselha: “Seja criativo, deixe preconceitos de lado e esteja sempre do lado certo da história. Um livro é muito mais do que papel; são histórias que mudam vidas.”

Ao encerrar a conversa, Claudio Magalhães faz um apelo em defesa da cultura independente: “Sigam artistas underground, apoíem, comprem seus produtos, assistam às apresentações. Há muita gente talentosa que precisa de visibilidade.”

Entre o romance e o rock, entre a solidão da escrita e a exposição pública, Claudio Alexandre Magalhães segue fiel à própria essência: contar histórias que provoquem reflexão e inquietação — e que resistam, como ele, ao tempo e às transformações do mundo contemporâneo.


Contatos:

Telefone: 98991-4627 E-mail: crivampir@gmail.com 

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Johann Peer é Jornalista responsável sob o n°65.158 MTB/SP e também vocalista e letrista da banda PEER & INUMANOS.

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