Panorama Cultural Johann Peer

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Marília Zangrandi (EUDÓXIA): Uma celebração litúrgica entre sombras, fé e Rock


 


Na noite de 24 de janeiro, o Red Star Studios, na Rua Teodoro Sampaio, deixou de ser apenas um espaço de ensaio e gravação para se tornar palco de uma experiência artística densa, visceral e profundamente simbólica. 


 Entre sombras, fé e rock: Este foi o set list onde Marília Zangrandi (Eudóxia) transforma o Red Star Studios em rito cênico-musical.

Onde à frente do espetáculo, Marília Zangrandi, em sua persona artística Eudóxia, conduziu o público por uma travessia sonora e emocional que transitou entre o rock, o teatro e a espiritualidade, costurando referências clássicas e contemporâneas com uma entrega cênica rara.


Desde os primeiros acordes de “Smoke and Mirrors”, ficou claro que não se tratava de um show convencional. A canção abriu o repertório como um manifesto: ilusões, máscaras e verdades fragmentadas, refletidas não apenas na música, mas também na postura corporal e na interpretação intensa de Eudóxia. Em “There’s No Chance”, o clima ganhou contornos mais dramáticos, reforçando a sensação de conflito interno e inevitabilidade que permeou toda a apresentação.


Um dos momentos mais impactantes da noite veio com “Gethsemane”, em que a referência bíblica foi ressignificada como metáfora do sofrimento humano, da dúvida e da entrega. A interpretação de Marília Zangrandi foi carregada de emoção, sustentada por uma performance vocal potente e ao mesmo tempo vulnerável, arrancando do público um silêncio atento, quase reverencial.


A escolha de “Homem com H”, de Ney Matogrosso, trouxe um respiro provocativo e libertário ao espetáculo. Longe de soar deslocada, a canção dialogou com o conceito do show ao exaltar identidade, coragem e transgressão, reafirmando a força do corpo e da expressão como linguagem política e artística.


Canções como “The Chest” , “Still My Bleeding Heart” e “The Song” aprofundaram o clima introspectivo, explorando feridas emocionais, memórias e afetos expostos sem concessões. Em “Life Is a Lemon” e “Under the Sun”, o tom crítico e existencial ganhou força, refletindo sobre frustrações, sobrevivência e resistência em um mundo cada vez mais árido.


O medley dedicado a Ozzy Osbourne funcionou como um elo direto com a tradição do rock, evocando suas raízes mais sombrias e contestadoras, ao mesmo tempo em que reforçou a versatilidade de Eudóxia como intérprete. O encerramento com “The Angel” selou a noite com uma atmosfera quase litúrgica, misturando redenção, transcendência e despedida, deixando no ar uma sensação de catarse coletiva.


Mais do que um espetáculo musical, a apresentação de Marília Zangrandi (Eudóxia) no Red Star Studios foi uma obra artística completa, onde repertório, interpretação e conceito caminharam juntos. Um evento que não apenas impactou o público presente, mas também reafirmou o poder da música como linguagem estética, emocional e simbólica — capaz de provocar, inquietar e, sobretudo, transformar.


*Johann Peer para o blog Panorama Cultural em colaboração com Isabella Miranda-Assessoria publicada 

em Janeiro de 2026.

Sete Chacras: o peso da terra, a fúria do tempo e o rock como território de solar resistência.

 






A banda Sete Chakras ativa desde os anos 2000 com forte presença na cena de rock autoral da Brasilândia e zona norte/oeste de SP. Suas músicas e letras poéticas abordando cenários urbanos e vivências do cotidiano. 

 

No vasto e por vezes árido cenário da música independente paulista, a banda Sete Chakras emerge como um organismo vivo, enraizado na terra e atento aos ruídos do mundo contemporâneo. O nome, por si só, já evoca imagens de espaço, pertencimento e conflito: chacras como território, como medida ancestral, como símbolo de disputa e sobrevivência. É a partir dessa metáfora que a banda constrói sua identidade sonora e estética — um Blues Rock denso, visceral e comprometido com o presente.


A sonoridade da Sete Chakras transita entre o peso das guitarras e a precisão rítmica, sem abrir mão da organicidade. Há uma tensão constante entre o controle técnico e o caos emocional, como se cada música fosse um embate direto entre razão e instinto. O baixo sustenta o chão — firme, pulsante — enquanto a bateria conduz com levadas que oscilam entre a brutalidade e a sutileza, criando espaços para que as guitarras rasguem o ar com riffs ora cortantes, ora atmosféricos.


As letras são um capítulo à parte. Longe de discursos rasos ou panfletários, a Sete Chacras aposta em narrativas que dialogam com o indivíduo e o coletivo ao mesmo tempo. Há críticas sociais, reflexões existenciais e imagens quase cinematográficas, que convidam o ouvinte a atravessar paisagens internas e externas. A palavra é tratada como ferramenta de confronto, mas também de escavação — como quem revolve a terra em busca de algo esquecido ou oculto.


No palco, a banda transforma som em presença. A performance é direta, sem excessos, mas carregada de intensidade. Cada integrante parece compreender o espaço como extensão da música, criando uma relação física com o público. Não há distanciamento: a Sete Chakras toca como quem ocupa um território, afirmando sua existência a cada acorde. O resultado é um show que não se limita ao entretenimento, mas propõe experiência e impacto.


Inserida no circuito independente, a Sete Chakras carrega o espírito do faça-você-mesmo não como limitação, mas como escolha estética e política. A autonomia artística se reflete na coerência do trabalho, na forma como a banda constrói sua trajetória sem abrir mão da identidade. Em um cenário marcado por algoritmos, tendências descartáveis e consumo rápido, o grupo aposta no tempo, na escuta atenta e na força do conteúdo.


Sete Chakras não é apenas uma banda; é um gesto. Um gesto de quem entende o rock como linguagem viva, capaz de dialogar com a realidade social, com a memória e com o futuro. Em cada música, a banda reafirma que ainda há espaço para profundidade, peso e verdade na música independente paulista — desde que se esteja disposto a fincar os pés no chão e encarar o mundo sem concessões.


*Discografia e Músicas:


A banda tem focado no lançamento de singles e sessões ao vivo trazendo atualmente na sua formação Leny (Voz),Ritchie Ray (Guitarra solo),Vitinho (Guitarra base). Lafa d’Meyer (Contrabaixo) e Téo Russo Júnior (Bateria).

Algumas das músicas registradas da Sete Chakras incluem: 

Ouro & Blues (música citada em bastidores de estúdio)

Cidade das Máquinas

A Soma

A Metrópole

Lar Doce Bar (registrada ao vivo) 

O Sol (registrada ao vivo na Fábrica de Cultura Brasilândia), sendo que esta última será lançada no Red Star Studios em São Paulo, dia 31/01 ás 21:00h tendo como convidada a banda Santubali com a participação mais que especial da cantora revelação da música autoral brasileira, Caiary.Não percam!

E, bora de ROCK AND ROLL 🔥 🎸 🎼

 🎵 🎶 🤘 





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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Entrevista Drenna Rock no Panorama Cultural por Johann Peer



1) Vocês se lembram quando e como foi o primeiro contato com a música de cada um, especialmente com o velho e bom Rock and Roll? 

A música chegou antes de virar escolha, ela simplesmente estava lá. Minha mãe sempre ouvia Michael Jackson e foi assim que nasceu meu interesse pela guitarra. Um dia eu vi um vídeo em que o Slash fazia uma participação especial no show do Michael Jackson e me apaixonei pela forma que ele tocava guitarra, naquele momento percebi que era isso que eu queria pra minha vida.


2) Na  iniciação com as artes, principalmente a música, vocês  contaram com apoio da família e amigos?

Cada integrante da banda tem uma história diferente em relação a isso. No meu caso, sempre tive apoio e incentivo. Sabemos que seguir uma carreira artística no Brasil exige muita insistência e, para todos nós da banda, o apoio da família foi se fortalecendo com o tempo. Ele se tornou mais sólido quando a música deixou de ser apenas um “sonho” e passou a ser trabalho, estrada e responsabilidade.


3) Como surgiu a banda Drenna Rock? E quais as  principais influências e referências musicais de cada um de vocês e que conjuminaram  dentro da proposta e formação da banda?

A Drenna nasceu da necessidade de dizer algo próprio. De transformar vivência em som. As influências passam pelo Rock nacional e internacional, grunge, alternativo, punk, música urbana. Cada integrante carrega uma bagagem diferente, e é justamente esse encontro de referências que molda o som da banda: Rock com identidade brasileira, contemporâneo e autoral.


4) Quando, onde, e como  foi  a  primeira apresentação da banda Drenna e como foi a receptividade junto ao público com esta única formação?

A primeira apresentação aconteceu de forma crua, sem grandes produções. Foi em um evento de bandas underground no subúrbio do Rio de Janeiro. Eu tinha algumas músicas guardadas na gaveta e, naquele momento, ainda não existia uma banda autoral formada. Quando soube do festival, resolvi me inscrever mesmo sem banda. Juntei alguns amigos, mostrei as músicas e fizemos um ensaio.

Foi ali que percebemos que a banda funcionava ao vivo. A receptividade foi intensa, o público se conectou rapidamente com a proposta e com as letras e por conta disso resolvemos continuar.





5) A banda Drenna ROCK tem feito um grande número de apresentações pelo Brasil em grandes eventos e festivais como o ROCK IN RIO.Qual foi a sensação de terem se apresentado para um grande público e um evento deste porte? E qual expectativa para este ano, já que tem ROCK IN RIO novamente?

Tocar em um festival como o Rock in Rio é uma experiência surreal. Ao mesmo tempo em que você sente o peso da história e a grandiosidade do evento, também vem uma responsabilidade enorme de estar à altura daquele palco. É a confirmação de muitos anos de trabalho, insistência e escolhas feitas ao longo do caminho.

Estar em grandes festivais é sempre muito especial porque não é apenas sobre tocar para quem já acompanha a banda e conhece o nosso som, mas também sobre alcançar um público completamente novo, que muitas vezes tem ali o primeiro contato com a nossa música, ao vivo. É uma oportunidade única de conexão, de ampliar horizontes e de mostrar quem somos em poucos minutos, mas com muita intensidade.

Para este ano, a expectativa é seguir crescendo, ocupando espaços cada vez maiores e levando o nosso Rock autoral para ainda mais pessoas. Se o Rock in Rio voltar a acontecer na nossa trajetória, queremos subir naquele palco ainda mais preparados, com mais estrada, mais identidade e a mesma entrega de sempre.


6) A banda já lançou quais e quantos álbuns? Qual foi o lançamento mais recente e há previsão de um novo trabalho em breve?

Temos dois álbuns e alguns singles lançados. O primeiro foi Desconectar e o segundo, Cisne Negro, que é também o nosso trabalho mais recente em formato de álbum e representa uma fase importante de amadurecimento artístico da banda, tanto musicalmente quanto conceitualmente.

Depois desse lançamento, seguimos apresentando novos caminhos com os singles “Aliens” e “Só o Tempo Irá Dizer”, ambos acompanhados de videoclipes, reforçando a nossa preocupação em unir música e linguagem visual.

No momento, estamos trabalhando em dois novos singles e também na produção de um novo álbum, com lançamento previsto ainda para este ano. A ideia é aprofundar ainda mais a nossa identidade e explorar novas sonoridades, sem perder a essência do Rock que nos trouxe até aqui.


7) A Drenna Rock tem planos de fazer parcerias com Artistas e Bandas do cenário independente?Se sim,  ou não e porque?

Sim, temos planos e acreditamos muito em parcerias. Já vivenciamos isso no álbum Cisne Negro, na música “A Busca”, em parceria com Kauan Calazans. Essas trocas são importantes não só artisticamente, mas também para ampliar diálogos e conexões.

Novas parcerias já estão a caminho. A cena independente se fortalece na troca, e o Rock cresce quando caminha junto, somando vozes, ideias e experiências.


8) Como vocês enxergam o Rock brasileiro das décadas de 80, 90 e início dos anos 2000, em comparação com o cenário atual, em que outros gêneros ganharam protagonismo? O que falta para o Rock voltar a ocupar o espaço e o protagonismo  de antes? 

O Rock das décadas de 80, 90 e início dos anos 2000 contou com muito mais espaço na mídia e nas grandes plataformas de divulgação. Hoje, o cenário é diferente: outros gêneros ganharam protagonismo, mas o Rock não desapareceu. Ele segue vivo, talvez ainda mais diverso, plural e livre, justamente por estar fora do mainstream.

Para voltar a ocupar um lugar de maior destaque, o Rock não precisa repetir fórmulas do passado. Precisa dialogar com o presente, refletir as questões do seu tempo, ocupar novos espaços e se comunicar com novas gerações, sem perder a sua essência.

É exatamente isso que buscamos fazer com a Drenna: construir pontes entre tradição e contemporaneidade, ocupar esses espaços e manter o rock em constante movimento.





9) O Rock nasceu de raízes negras e femininas com Sister Rosetta Tharpe, mas historicamente sempre foi associado ao masculino e ao “universo branco”. Na opinião de cada um, houve avanços nessa questão? Como quebrar paradigmas ainda existentes? E qual o papel das mulheres e das comunidades LGBTQIA+ no Rock atual?

Houve avanços, mas ainda há muito a caminhar. O Rock nasceu negro, feminino e rebelde. Resgatar essa origem é quebrar paradigmas. Mulheres e pessoas LGBTQIA+ têm papel fundamental no Rock atual: trazendo novas narrativas, novos corpos e novas estéticas. O palco precisa refletir o mundo atual e real.


10) Em termos de cena independente e autoral, quais são as principais diferenças e desafios do Brasil em relação à Europa e aos Estados Unidos? O que ainda precisa melhorar para fortalecer o mercado nacional? 

No Brasil, o desafio é estrutural: menos investimento, menos políticas culturais contínuas e menos espaço na mídia. Em compensação, a criatividade é absurda. Para fortalecer o mercado nacional, precisamos de mais circulação, apoio à cena local e valorização do artista autoral.

Nossa cena é muito rica.


11) Para quem ainda não conhecem o trabalho da banda, definam a Drenna Rock:

A Drenna é rock brasileiro autoral, visceral, urbano e contemporâneo. As letras nascem da nossa vivência, do que pensamos, observamos e sentimos no dia a dia. Falamos sobre inquietações, conflitos internos, relações humanas e o mundo ao nosso redor, sempre de forma direta e honesta. No palco, isso se transforma em entrega, intensidade e conexão.


12) Para finalizar: qual mensagem vocês gostariam de deixar para seus fãs, seguidores e leitores do Rock Brasileiro Underground?

Para quem vive o rock: continuem. Criem, ocupem espaços, formem redes, não esperem permissão. O rock sempre foi resistência, e enquanto houver gente sentindo, pensando e questionando, ele vai continuar vivo.


Por Johann Peer Jornalista responsávelsob o n°65.158 MTB/SP e  também, vocalista e compositor da banda PEER & INUMANOS.

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