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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

QUANDO A MUDANÇA DEIXA DE SER PROMESSA E SE TRANSFORMA EM RISCO






Uma reflexão sobre democracia, Estado, liberdade e os caminhos que uma sociedade escolhe diante das crises do presente


PANORAMA CULTURAL |JOHANN PEER 



Há mudanças que convergem para o bem e para o melhor. Porém, existem outros tipos de mudanças que tendem a ser para o mal e para o pior. Portanto, atentai-vos para evitar que certas ditas mudanças sejam um mal necessário para a benesses de  poucos em detrimento de muitos. - Johann Peer 


A frase parece simples, mas carrega uma questão essencial para qualquer sociedade: toda mudança representa necessariamente progresso?


Em tempos de incerteza econômica, insatisfação política e descrença nas instituições, essa pergunta ganha ainda mais importância. Quando uma parcela da população deixa de acreditar na capacidade do Estado de enfrentar problemas sociais, econômicos e estruturais, abre-se espaço para discursos que prometem soluções rápidas para questões que, na realidade, exigem tempo, planejamento e participação democrática.


É nesse ambiente que prosperam os discursos políticos capazes de transformar a frustração coletiva em argumento de convencimento.


Não se trata de afirmar que toda crítica ao Estado seja ilegítima. Ao contrário: questionar governos, instituições e políticas públicas é parte essencial de uma democracia saudável. O problema começa quando a crítica deixa de buscar aperfeiçoamento e passa a apresentar a própria democracia, as instituições ou os mecanismos de proteção social como obstáculos que deveriam simplesmente ser eliminados.


A história oferece exemplos que merecem ser estudados com atenção.


QUANDO A CRISE ABRE ESPAÇO PARA O EXTREMISMO


A ascensão de Adolf Hitler e do nazismo na Alemanha não ocorreu por uma única razão nem pode ser reduzida a uma simples estratégia de discurso. O processo envolveu a crise econômica, as consequências da Primeira Guerra Mundial, o ressentimento provocado pelo Tratado de Versalhes, a instabilidade política da República de Weimar, o desemprego, a polarização social e a utilização sistemática da propaganda.


O nazismo soube explorar essas fragilidades.


Hitler apresentou respostas simplificadas para problemas complexos, identificou inimigos internos e externos, estimulou sentimentos de medo e ressentimento e prometeu recuperar a grandeza nacional. A propaganda política foi utilizada para criar uma narrativa capaz de mobilizar diferentes setores da população.


O episódio histórico nos ensina algo que continua atual: democracias não se enfraquecem apenas quando alguém declara ser contrário a elas. Elas também podem ser fragilizadas quando a sociedade passa a aceitar, gradualmente, a ideia de que determinados direitos, instituições ou regras democráticas são inconvenientes diante de uma suposta emergência.


É nesse ponto que a reflexão sobre o presente se torna necessária.


 O EFEITO MANADA E A POLÍTICA DO MEDO


A psicologia social demonstra que indivíduos podem modificar comportamentos e opiniões quando percebem que determinado posicionamento está sendo adotado por um grande número de pessoas. O chamado efeito manada não pertence exclusivamente a uma corrente ideológica ou política.


Por isso, é necessário cuidado ao analisar o fenômeno.


Ele pode aparecer tanto em movimentos de direita quanto de esquerda, em grupos religiosos, comunidades virtuais, ambientes empresariais, movimentos culturais ou qualquer espaço no qual a pressão coletiva possa substituir a análise individual.


O problema surge quando a repetição substitui a reflexão.


Uma afirmação repetida milhares de vezes pode adquirir aparência de verdade, mesmo quando não foi devidamente comprovada. Uma acusação pode transformar-se em certeza simplesmente porque passou a circular de maneira insistente. E uma promessa política pode parecer solução definitiva simplesmente porque foi apresentada com convicção.


É justamente aí que a cidadania precisa recuperar seu papel mais importante: pensar antes de seguir.


LIBERDADE DE EXPRESSÃO TAMBÉM EXIGE RESPONSABILIDADE


A liberdade de expressão é um dos pilares das sociedades democráticas. Ela permite que opiniões divergentes sejam apresentadas, debatidas, contestadas e até mesmo rejeitadas pelo público.


Entretanto, liberdade de expressão não significa que toda afirmação seja automaticamente verdadeira.


Uma sociedade livre precisa conviver com opiniões diferentes, mas também precisa preservar o direito à informação confiável, à ciência, ao jornalismo responsável e ao debate baseado em fatos verificáveis.


Nesse contexto, expressões como “ideologia de gênero” precisam ser compreendidas com cuidado. O termo é utilizado de maneiras distintas em disputas políticas, religiosas e culturais e não corresponde, por si só, a uma categoria científica consensual. Isso não impede que existam debates legítimos sobre sexo, gênero, identidade, educação, família e políticas públicas; significa apenas que conceitos científicos e argumentos políticos não devem ser confundidos.


Quando essa distinção desaparece, o debate público fica mais vulnerável à desinformação.


QUANDO O DISCURSO SIMPLIFICA DEMAIS A REALIDADE


Existe uma tentação recorrente na política: oferecer respostas simples para problemas extremamente complexos.


“O Estado é o problema.”


“O mercado resolverá tudo.”


“O Estado resolverá tudo.”


“Basta retirar determinado grupo do poder.”


“Basta eliminar determinada instituição.”


“Basta mudar as regras.”


Frases assim podem produzir forte impacto emocional, mas raramente explicam a complexidade da realidade.


O Estado pode ser ineficiente em determinadas situações e indispensável em outras. O mercado pode estimular inovação e desenvolvimento, mas também necessita de regras capazes de evitar abusos e preservar direitos. A iniciativa privada pode produzir riqueza, enquanto políticas públicas podem desempenhar papel importante na redução de desigualdades e na ampliação de oportunidades.


Uma sociedade madura não deveria precisar escolher entre extremos para reconhecer essas diferentes dimensões.


 A MUDANÇA QUE SERVE A TODOS


Talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente “devemos mudar?”, mas sim:


“Mudar para quê, para quem e a que custo?”


Toda proposta de transformação deveria ser examinada a partir de suas consequências.


Quem será beneficiado?


Quem poderá ser prejudicado?


Quais direitos serão preservados?


Quais serão alterados?


Existe evidência de que a medida funcionará?


Há mecanismos de controle?


A população poderá questioná-la?


Essas perguntas não pertencem a uma ideologia específica. Pertencem à própria ideia de cidadania.


Porque mudar pode ser necessário. Reformar pode ser indispensável. Corrigir erros é parte natural da evolução de qualquer sociedade.


Mas mudança sem reflexão pode transformar-se apenas em substituição.


E substituir o conhecido pelo desconhecido não significa necessariamente avançar.


 O PRESENTE COMO RESPONSABILIDADE HISTÓRICA


Vivemos um período em que informações circulam em velocidade inédita. Redes sociais transformaram cidadãos em produtores e distribuidores de conteúdo. Ao mesmo tempo em que isso democratizou a comunicação, também aumentou a responsabilidade individual diante daquilo que se compartilha.


Talvez uma das maiores tarefas do nosso tempo seja justamente aprender novamente a desconfiar das certezas fáceis.


Desconfiar não significa ser contrário a tudo.


Significa perguntar.


Questionar.


Pesquisar.


Comparar fontes.


Ouvir opiniões diferentes.


Reconhecer erros.


E, principalmente, não permitir que o medo determine sozinho o caminho de uma sociedade.


A história não se repete exatamente da mesma maneira. As circunstâncias mudam, as tecnologias mudam, os personagens mudam e os desafios também.


Mas determinados mecanismos humanos permanecem reconhecíveis: o medo, o ressentimento, a necessidade de pertencimento, a procura por culpados e a esperança de encontrar alguém que prometa resolver tudo.


Por isso, talvez a verdadeira defesa da democracia não esteja apenas nas instituições.


Ela também esteja na capacidade cotidiana de cada cidadão de pensar por conta própria.


Porque uma sociedade que deixa de questionar pode ser conduzida com facilidade por qualquer discurso que se apresente como solução definitiva.


E talvez seja justamente por isso que a frase inicial mereça permanecer como advertência:


Há mudanças que convergem para o bem e para o melhor. Porém, existem outros tipos de mudanças que tendem a ser para o mal e para o pior. Portanto, atentai-vos para evitar que certas ditas mudanças sejam um mal necessário para poucos em detrimento de muitos.


No fim, mudar continua sendo necessário.


Mas escolher para onde mudar, para quem  e porque mudar talvez seja uma das maiores responsabilidades de uma geração.



Johann Peer é jornalista (MTB/SP nº 68.158), filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (nº 23.681), jurado da 20ª edição do Concurso Autorais SMPENG 2026,Embaixador do TOUR ROCK BRASIL em Peruíbe-SP através da Comunicadora, Apresentadora e Jornalista Kaká Schwartzmann além de vocalista, compositor, poeta, escritor e ativista cultural da banda PEER & INUMANOS.


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