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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

QUE FIZERAM DA INFÂNCIA? O DIREITO DE SER CRIANÇA EM UM MUNDO QUE PRECISA REDESCOBRIR A INOCÊNCIA - CRÔNICA






No Dia das Crianças, uma reflexão sobre a infância, a adultização precoce, a proteção dos sonhos e a responsabilidade da sociedade na construção de um futuro mais humano.


Por Johann Peer | PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER



 A infância não deveria ter pressa


Existe uma pergunta que deveria acompanhar não apenas o Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro no Brasil, mas todos os dias do ano: que fizeram da infância?

A pergunta, que dá título ao poema de minha autoria, nasce da inquietação diante de uma realidade em que tantas crianças parecem ser pressionadas a crescer antes do tempo. Entre as exigências do mundo contemporâneo, a exposição nas redes sociais, a valorização excessiva da aparência e a busca por reconhecimento, torna-se necessário refletir sobre aquilo que não pode ser negociado: o direito de ser criança.

A infância é um período de descobertas, imaginação, aprendizado e formação da identidade. É quando uma brincadeira pode se transformar em aventura, um livro pode abrir as portas de um universo desconhecido e uma simples conversa pode ensinar valores que acompanharão uma pessoa por toda a vida.

Entretanto, quando a sociedade passa a exigir comportamentos, responsabilidades e padrões estéticos incompatíveis com a idade, surge uma questão importante: estamos oferecendo às crianças condições para crescer ou estamos retirando delas a oportunidade de viver cada etapa de seu desenvolvimento?


Quando crescer deixa de ser uma descoberta


No poema Que fizeram da infância? escrevo:


“Adulteram a essência?

Nos roubaram a inocência”


Esses versos não representam apenas uma lamentação poética. Eles convidam o leitor a observar criticamente situações em que a infância pode ser comprometida por pressões externas, negligência, exploração ou expectativas inadequadas.

A adultização precoce é um tema que merece atenção. Ela pode aparecer quando crianças são incentivadas a reproduzir comportamentos adultos, submetidas a cobranças excessivas sobre a aparência ou tratadas como se precisassem corresponder às expectativas de um público antes mesmo de compreenderem plenamente quem são.

O ambiente digital acrescenta novos desafios. Fotografias, vídeos, tendências e mecanismos de busca por curtidas podem transformar a exposição em uma fonte de pressão. Quando a imagem de uma criança passa a ser utilizada prioritariamente para obter atenção, popularidade ou vantagens financeiras, é necessário questionar os limites dessa exposição e considerar a privacidade, a segurança e o bem-estar dos pequenos.

Isso não significa condenar a tecnologia, as redes sociais ou as famílias de maneira generalizada. Significa reconhecer que a infância precisa de adultos atentos, capazes de estabelecer limites, oferecer orientação e compreender que nem toda forma de visibilidade representa uma experiência saudável.

A criança não precisa provar seu valor diante de uma plateia. Precisa encontrar condições para descobrir seus talentos, expressar sentimentos, fazer perguntas e aprender sem ser submetida a padrões que não correspondem à sua fase de desenvolvimento.


Os sonhos não podem ser substituídos pelo medo

Em outro trecho do poema, a pergunta se torna ainda mais profunda:

“Quem são eles?

Que será de nós?

Até quando prisioneiros

Da maldade tão atroz?”


A força desses versos está na inquietação que provocam. Quem é responsável quando uma criança perde a sensação de segurança? Quem deve agir quando seus direitos são desrespeitados? E o que acontece com uma sociedade que se acostuma a tratar o sofrimento infantil como se fosse um problema distante?

A proteção da infância não é responsabilidade exclusiva das famílias. Ela envolve escolas, comunidades, instituições públicas, meios de comunicação, plataformas digitais e toda a sociedade.

Violência, abandono, exploração, discriminação e falta de acesso a oportunidades podem comprometer o desenvolvimento infantil. Por isso, a reflexão precisa ir além das palavras: é necessário fortalecer redes de proteção, valorizar a educação, ampliar o acesso à cultura e garantir que crianças tenham espaços seguros para brincar, aprender e conviver.


Também é fundamental ouvir as crianças. Respeitar sua voz não significa transferir a elas responsabilidades adultas, mas reconhecer que seus sentimentos, suas opiniões e suas necessidades merecem atenção.

Uma criança que encontra acolhimento aprende que pode pedir ajuda. Uma criança que tem acesso à educação e à cultura amplia suas possibilidades de compreender o mundo. Uma criança que brinca, imagina e convive com outras pessoas desenvolve habilidades importantes para sua formação.

Proteger a infância é, portanto, cuidar não apenas do presente, mas também das possibilidades do futuro.


A cultura como espaço de formação humana

A arte desempenha um papel importante nesse processo. A música, a literatura, o teatro, o cinema e as artes visuais podem despertar a curiosidade, estimular a criatividade e aproximar crianças de diferentes realidades culturais.

Uma canção pode ajudar a nomear sentimentos. Uma história pode ensinar a reconhecer a diferença. Uma peça teatral pode abrir espaço para perguntas difíceis. Um desenho pode expressar aquilo que ainda não encontrou palavras.

Nesse sentido, o acesso à cultura não deve ser visto apenas como entretenimento ou privilégio. Ele também pode contribuir para a formação crítica, para o desenvolvimento da sensibilidade e para a construção de vínculos sociais.

É importante, porém, respeitar a idade, a individualidade e os interesses de cada criança. Incentivar talentos não é o mesmo que impor expectativas. Oferecer oportunidades não significa exigir resultados. A arte deve ser um espaço de expressão e descoberta, não mais uma fonte de cobrança.

No PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER, pensar a cultura também significa refletir sobre seu papel na formação humana. Defender a arte é reconhecer que uma sociedade se torna mais rica quando suas crianças têm a oportunidade de conhecer diferentes linguagens, desenvolver a imaginação e participar da vida cultural.


Devolver à infância o direito de existir

Na parte final do poema, o apelo se transforma em esperança:

“Devolvam a infância, devolvam a paz

Que a inocência tenha lugar

Onde renasça a esperança”

Devolver a infância não significa impedir que as crianças aprendam sobre o mundo ou enfrentem desafios próprios de seu crescimento. Significa permitir que amadureçam gradualmente, com orientação, afeto, segurança e respeito.

Significa compreender que brincar não é perder tempo; é uma das formas pelas quais a criança aprende. Que descansar não é falta de ambição. Que errar faz parte do desenvolvimento. E que nenhuma criança deveria precisar abandonar seus sonhos para corresponder às expectativas de adultos.

Também significa reconhecer que a proteção infantil exige atitudes concretas: acompanhar o conteúdo consumido na internet, preservar a imagem e os dados pessoais dos pequenos, combater situações de exploração, incentivar a convivência saudável e procurar ajuda quando houver sinais de violência ou violação de direitos.

O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece direitos fundamentais relacionados à vida, à saúde, à educação, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Esses direitos não devem permanecer restritos aos documentos oficiais: precisam estar presentes nas escolhas cotidianas de famílias, instituições e comunidades.

O Dia das Crianças pode ser uma oportunidade para celebrar, presentear e compartilhar momentos de alegria. Mas sua importância não deveria terminar quando os brinquedos são guardados e as comemorações chegam ao fim.

A data também nos convida a perguntar se estamos construindo ambientes nos quais cada criança possa crescer sem medo, desenvolver sua personalidade e descobrir o mundo no seu próprio ritmo.


Que o futuro não silencie a voz das crianças

A pergunta que atravessa este poema não exige uma resposta simples. Ela pede reflexão, responsabilidade e disposição para mudar atitudes.

Que fizeram da infância? Talvez a pergunta mais urgente seja outra: o que estamos fazendo, hoje, para preservá-la?

Cada adulto pode contribuir para essa resposta ao respeitar os limites da criança, valorizar sua educação, incentivar sua criatividade, protegê-la da exploração e reconhecer sua dignidade. Pequenas atitudes, quando acompanhadas de compromisso coletivo, ajudam a criar ambientes mais seguros e acolhedores.

O futuro não deve ser construído à custa do presente das crianças. Elas não são apenas os adultos que um dia serão. São pessoas com direitos, sentimentos, necessidades e sonhos que merecem ser respeitados agora.

Neste Dia das Crianças, que a celebração seja também um compromisso com a paz, a cultura, a educação, a liberdade e a proteção da infância.

Que nenhuma criança tenha sua voz silenciada, seus sonhos tratados com indiferença ou sua dignidade sacrificada em nome da popularidade, do lucro ou das expectativas alheias.

E que a sociedade compreenda, finalmente, a mensagem que encerra meu poema:

“Não roubem os sonhos, não calem a voz

(Do futuro e essência de cada criança)”

Porque preservar a infância é preservar a possibilidade de um mundo mais sensível, consciente e humano.


Que fizeram da infância?

Johann Peer 


Que fizeram da infância?

Do sorriso da criança?

Adulteram a essência?

Nos roubaram a inocência 


Adultizaram de modo servil

O traço infanto juvenil

Desesperaram a esperança 

Estupram a paz que não mais se alcança 


Quem são eles?

Que será de nós?

Até quando prisioneiros 

Da maldade tão atroz ?


Que fizeram dos seus sonhos?

Quando apagaram o seu sorriso?

Roubaram teu mundo interior

Te venderam o inferno 


(Te prometeram o paraíso)


Devolvam a infância, devolvam a paz

Que a inocência tenha  lugar

Onde renasça a esperança

Não roubem os sonhos, não calem a voz


(Do futuro e essência de cada criança) 



Johann Peer

PANORAMA CULTURAL POR JOHANN PEER — cultura, arte, música e reflexão social.


Johann Peer é jornalista (MTB/SP nº 68.158), filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (nº 23.681), jurado da 20ª edição do Concurso Autorais SMPENG 2026, Embaixador do TOUR ROCK BRASIL em Peruíbe-SP através da Comunicadora, Apresentadora e Jornalista Kaká Schwartzmann além de vocalista, compositor, poeta, escritor e ativista cultural da banda PEER & INUMANOS.


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